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Os Zumbis de Mora Tau (Zombies of Mora Tau, EUA - 1957)



Produção em preto e branco de Sam Katzman (Clover Productions), dos saudosos anos 50 do século passado. Com duração curta (apenas 70 minutos), foi apresentado pelo canal de TV a cabo Cinemax como Os Zumbis de Mora Tau, sendo que o primeiro título nacional que recebeu quando exibido por aqui foi O Fantasma de Mora Tau. A direção é de Edward L. Cahn (1899/1963), o mesmo cineasta de outras tranqueiras do período como A Ameaça do Outro Mundo (58) e Invasores Invisíveis (59), e no elenco temos a bela Allison Hayes (1930/1977), mais conhecida pelo papel título de A Mulher de 15 Metros (58).

Um grupo de dez marinheiros é vítima de uma maldição, transformando-se em zumbi após o naufrágio de seu navio 60 anos atrás na costa da África. Eles são obrigados a proteger um tesouro de diamantes numa caixa dentro do navio afundado, não permitindo que ninguém roube as pedras preciosas, com várias expedições de caçadores de tesouros sucumbindo à sua fúria e aumentando a população do cemitério local. Porém, não acreditando nas lendas e rumores sobre a existência dos guardiões mortos-vivos, uma nova expedição financiada pelo ambicioso George Harrison (Joel Ashley) tenta encontrar os diamantes. Fazem ainda parte da equipe, sua bela esposa Mona Harrison (Allison Hayes), o mergulhador galã Jeff Clark (Gregg Palmer) e o pesquisador Dr. Jonathan Eggert (Morris Ankrum). Em paralelo, uma velha senhora (Marjorie Eaton) que mora na região e é a viúva do capitão do navio naufragado, recebe a visita de sua bisneta Jan Peters (Autumn Russell), e tem interesse na chegada da expedição para tentar eliminar o tesouro amaldiçoado e com isso libertar os zumbis de seu tormento de décadas. 

Bagaceira divertida justamente pela overdose de falhas, que vão desde furos no roteiro, clichês, situações absurdas, diálogos patéticos e interpretações toscas do elenco. Não podendo deixar de citar as incrivelmente hilárias cenas supostamente aquáticas com os mergulhadores à procura do tesouro e os ataques de zumbis submersos (muitos anos antes dos zumbis aquáticos de Zombie – A Volta dos Mortos, 1979, de Lucio Fulci, e de O Lago dos Zumbis, 1981, dirigido por Jean Rollin e com roteiro de Jess Franco).

Curiosamente, no texto original de abertura do filme, foi utilizado o termo “twilight zone”, que é o nome de uma das mais importantes séries de TV da história do cinema fantástico, Além da Imaginação, dois anos antes de seu lançamento em 1959. Ao contrário do que acontece principalmente desde o início do século 21, onde o sub-gênero dos zumbis é explorado à exaustão, com o lançamento de dezenas de filmes a todo momento, na época da produção de Os Zumbis de Mora Tau, os roteiros envolvendo mortos-vivos eram escassos e se inspiravam geralmente no vodu e magia negra, e somente bem depois os zumbis seriam apresentados como cadáveres putrefatos comedores de carne humana. Dentro dessa ideia, podemos considerar o filme como um dos poucos antigos precursores desse sub-gênero tão popular atualmente, e que depois do clássico A Noite dos Mortos-Vivos (68), de George Romero, ganhou tanta força e motivação para se tornar um dos principais temas do cinema de horror.


(RR – 23/12/14)

Vault of Horror (A Cripta dos Sonhos - 1973)


Antologia com histórias curtas de horror, produzida pelo estúdio inglês Amicus, de Max Rosenberg e Milton Subotsky, rival da Hammer, com direção de Roy Ward Baker, de outras pérolas do cinema fantástico como Uma Sepultura na Eternidade (67), Os Vampiros Amantes e O Conde Drácula (ambos de 70). São cinco contos inspirados nos quadrinhos americanos dos anos 50, publicados pela EC Comics em revistas como The Vault of Horror e Tales From the Crypt, dos autores Al Feldstein e William M. Gaines. 

Cinco homens entram num elevador que os leva até um porão, e sem entender o que está acontecendo, entram numa sala e sentam-se à mesa que surge diante deles. A partir daí, cada um deles conta um relato pessoal de história de horror que vivenciou em sonhos, e que parecia real, enfatizando sua origem em visões, fobias, medos ou obsessões.

A primeira história chama-se “Midnight Mess”, e apresenta um homem inescrupuloso, Harold Rodgers (Daniel Massey), à procura de sua irmã Donna (Anna Massey), após a morte de seu pai. Seu objetivo é resolver assuntos relacionados à herança. Porém, a cidade onde sua irmã mora tem um mistério noturno, onde “eles” aparecem para se alimentar. 

O conto a seguir tem o título de “The Neat Job”, onde um homem bem sucedido, Arthur Critchit (Terry-Thomas), é obcecado por organização em sua casa. Ele então decide se casar com uma mulher mais jovem, Eleanor (Glynis Johns), que tem muita dificuldade em administrar a paranóia do marido com a organização domiciliar, culminando num desfecho trágico.

No terceiro segmento, “This Trick´ll Kill You”, um mágico veterano, Sebastian (o alemão Curt Jurgens), e sua esposa Inez (Dawn Addams), estão visitando a misteriosa Índia pesquisando novos truques de mágica. Eles encontram uma jovem (Jasmina Hilton) que consegue controlar uma corda através do toque de uma flauta. Não conseguindo descobrir o segredo, o mágico ambicioso decide roubar a moça, mas não imaginava a vingança que o aguardava. 

Na história número 4, “Bargain in Death”, Maitland (Michael Craig), é um homem com um plano para fraudar o seguro de vida, ingerindo um medicamento que simularia sua morte. A ideia seria ser resgatado depois de enterrado e com o retorno da consciência. Porém, ele não contava com a intenção de dois estudantes de medicina, Tom (Robin Nedwell) e Jerry (Geoffrey Davies), que estavam à procura de um cadáver para estudos de dissecação.

No último episódio, intitulado “Drawn and Quartered”, o pintor Moore (Tom Baker) vive numa ilha tropical no Haiti, país conhecido pelas práticas de voodoo. Quando ele descobre que está sendo enganado e seus quadros lesados, perdendo dinheiro para um grupo formado por um crítico de arte, um avaliador e um negociador, o pintor decide retornar para Londres e se vingar de seus algozes utilizando magia negra em suas obras.

"A Cripta dos Sonhos" mostra cinco histórias rápidas com cerca de quinze minutos cada, acrescidas de pequenos comentários entre elas, além do prólogo e epílogo que situam o espectador no contexto do objetivo do filme. Os contos fluem muito bem graças às narrativas curtas. Não há destaques, pois todas as histórias estão num nível similar, com conclusões pessimistas e perturbadoras. A produtora Amicus apostou bastante no formato de antologias, todas interessantes, e além desse A Cripta dos Sonhos, tivemos ainda outras preciosidades como As Profecias do Dr. Terror (65), As Torturas do Dr. Diabolo (67), A Casa Que Pingava Sangue (70), Contos do Além (72), O Asilo do Terror / Asilo Sinistro (72) e Vozes do Além (74).

(RR – 01/01/15)

The Phantom Planet (O Planeta Fantasma - 1961)


Direção de William Marshall. 

A humanidade possui uma base de pesquisas na Lua, de onde foguetes partem para explorações espaciais. Porém, um imenso objeto parecido com um planeta tem causado destruição colidindo contra naves terrestres, surgindo de repente no espaço e desaparecendo misteriosamente. Apelidado de “planeta fantasma”, um astronauta renomado, Capitão Frank Chapman (Dean Fredericks), é enviado numa missão de investigação, junto com o Tenente Ray Makonnen (Richard Weber), que acidentalmente se perde no espaço ao tentar reparar um problema externo no foguete. Quanto à Chapman, ele acaba pousando no tal planeta chamado Raiton, que abriga uma raça de humanóides em miniatura, uma civilização avançada tecnologicamente (tanto que transformaram o planeta numa espécie de nave gigante), mas que preferiram viver de forma primitiva, abolindo as máquinas e o luxo de uma vida entediante, optando pela luta pela sobrevivência. O astronauta terrestre também diminui de tamanho em contato com a atmosfera local e passa a viver entre os alienígenas, liderados pelo veterano Sessom (Francis X. Bushman), tendo que enfrentar a antipatia do rival Herron (Anthony Dexter), além de escolher uma namorada entre a loira ambiciosa Liara (Coleen Gray) e a bela morena silenciosa Zetha (Dolores Faith), enquanto planeja um meio de retornar ao tamanho natural e voltar para a base lunar. 

Curiosamente, o filme é ambientado em 1980, um futuro de duas décadas em relação à época de produção (1961), com a Terra mantendo uma base na Lua e com viagens espaciais regulares, porém, ao contrário das previsões otimistas dos escritores de ficção científica, após cerca de três décadas depois desse período abordado no roteiro, ainda caminhamos lentamente em relação à exploração espacial. O Planeta Fantasma tem fotografia em preto e branco e foi lançado em DVD juntamente com a space opera italiana Batalha no Espaço Estelar (1977). A história é até interessante, abordando um planeta que se move como uma nave e é habitado por uma civilização miniaturizada que vive uma situação paradoxal, possuindo grande conhecimento científico e ao mesmo tempo preferindo uma vida primitiva ao extremo. Os efeitos especiais são precários e exageradamente toscos, apesar da produção de cerca de meio século atrás, onde destaco no quesito “momento bagaceiro” o ataque das naves incendiárias dos solarites, uma raça inimiga dos humanóides, e a presença de um destes alienígenas horrendos com olhos esbugalhados, interpretado pelo gigante ator Richard Kiel, escondido numa fantasia de borracha típica dos filmes dos anos 50 e 60, não faltando a clássica cena do monstro carregando nos braços uma bela mulher desacordada.

O Planeta Fantasma (The Phantom Planet, EUA, 1961)
(RR – 12/11/09)

The Wizard of Gore (EUA, 1970)

O diretor americano Herschell Gordon Lewis (nascido em 1929) é conhecido e cultuado por seus filmes splatter ousados e carregados de violência e cenas sangrentas numa época ainda precursora do gênero (anos 60 e início de 70 do século passado), quando as produções não contavam com o apoio da computação gráfica e apenas os efeitos de maquiagem tentavam reproduzir a carne humana dilacerada. Filmes como Banquete de Sangue (1963), Maníacos (1964), Color Me Blood Red (1965), The Gruesome Twosome (1967), The Wizard of Gore (1970) e Gore Gore Girls (1972) são exemplos de sua obra cinematográfica de orçamentos reduzidos e sangue em profusão, deixada como legado para a história do gênero. 


Em The Wizard of Gore, temos um mágico ilusionista, Montag, o Magnífico (Ray Sager), que apresenta shows onde são escolhidas jovens mulheres na plateia para serem assassinadas no palco das maneiras mais brutais. Desde uma serra elétrica rasgando a barriga, ou o cérebro perfurado por uma talhadeira, passando por tripas dilaceradas por uma prensa hidráulica, até espadas que rasgam a boca e garganta de suas vítimas. Tudo como parte de um truque de ilusão, ou não... Em meio a tudo isso, como espectadores, está um casal formado por uma apresentadora de televisão, Sherry Carson (Judy Cler) e seu namorado, um jornalista esportivo, Jack (Wayne Ratay), que tenta investigar o mistério que envolve o espetáculo macabro do mágico e alguma conexão com o surgimento de mulheres mortas de forma violenta.


O filme está longe de ser um exemplo de cinema de qualidade, com ritmo narrativo arrastado e efeitos toscos ao extremo e nitidamente falsos, além de atuações risíveis de um elenco inexpressivo. Mas, o que realmente destacam-se são as cenas do espetáculo de horror do “mágico do gore”, e a ousadia do diretor H. G. Lewis em explorar cenas sangrentas numa época de 50 anos atrás, num fato que deve ser enaltecido, tornando The Wizard of Gore uma preciosidade recomendável que faz parte das obras precursoras do “splatter”. Curiosamente, teve uma refilmagem lançada em 2007, com direção de Jeremy Kasten e com nomes importantes no elenco como Crispin Glover, Jeffrey Combs e Brad Dourif, recebendo por aqui o título de O Mágico Sanguinário.


(RR – 17/09/14)

Retrato de Um Pesadelo (Night Gallery, EUA, 1969)


“Boa noite, e bem vindos à exposição particular de três quadros, expostos aqui pela primeira vez. Cada um deles é um item de colecionador a sua própria maneira, não por causa de alguma qualidade artística especial, mas porque cada um captura, suspenso no tempo e espaço, um momento gelado de um pesadelo”.

Essa é a introdução narrada por Rod Serling (o criador da série “Além da Imaginação”) para apresentação do filme piloto Retrato de Um Pesadelo (Night Gallery), que deu origem à série de TV Galeria do Terror (1970/1973), dividida em episódios com elementos de horror sobrenatural. O filme piloto traz três histórias independentes, porém todas relacionadas com seus protagonistas enfrentando uma fúria vingativa em retaliação por seus atos de crueldade. Foi exibido originalmente em 08/11/1969 com os episódios “The Cemetery”, “Eyes” e “The Escape Route”, todos com roteiro de Rod Serling. 

Na primeira história, com direção de Boris Sagal, um velho pintor rico, gravemente doente e recluso em sua enorme mansão, William Hendricks (George Macready), recebe a visita indesejada do único sobrinho, Jeremy Evans (Roddy McDowall), interessado apenas na herança e entrando em conflito com o fiel mordomo Osmund Portifoy (Ossie Davis). O jovem intruso, pensando na fortuna do tio, tem planos para abreviar o sofrimento do velho e aproximá-lo mais rápido da tumba, mas não esperava a ocorrência de uma misteriosa manifestação através das pinturas dos quadros mórbidos espalhados pela casa. Ótima história que lembra aqueles nostálgicos quadrinhos clássicos de horror e a típica ambientação sombria de uma imensa mansão com os mortos em busca de vingança para aliviar seus tormentos. 

Em Eyes, na estreia profissional de direção pelo hoje aclamado Steven Spielberg, uma idosa milionária, solitária, infeliz, arrogante e cega, Srta. Claudia Menlo (Joan Crawford), está disposta a pagar muito dinheiro por olhos que lhe dariam a visão por cerca de 12 horas, com o auxílio de um médico, Dr. Frank Heatherton (Barry Sullivan). O doador é um homem desesperado à beira da falência, Sidney Resnick (Tom Bosley), que aceita a cegueira em troca de amenizar suas dívidas. Mas as coisas não funcionam exatamente como planejado. Os nomes de Spielberg e Crawford já anunciam a qualidade do resultado, numa história escura (literalmente), e repleta de amargura, onde o dinheiro não compra a paz e felicidade. 

No último episódio, “The Escape Route”, dirigido por Barry Shear, temos um ex-oficial alemão, Josef Strobe (Richard Kiley), refugiado ilegalmente na América do Sul e que está sendo perseguido pela polícia por seus crimes nazistas durante a Segunda Guerra Mundial nos campos de concentração. Ele vive atormentado por fantasmas de seu passado de cruéis assassinatos. Depois que é reconhecido por um velho sobrevivente judeu, Bleum (Sam Jaffe), tenta fugir, visitando constantemente um museu onde admira uma pintura de um pescador. Seu desejo é entrar no quadro, mas não imagina que está mais perto do inferno do que da tranquilidade de um lago rodeado de montanhas. É o episódio mais fraco dos três, mas ainda assim interessante e com um desfecho perturbador. 

(RR – 19/08/14)

As Amantes do Dr. Jekyll (Les Maîtresses Du Dr. Jekyll / El Secreto del Dr. Orloff - 1964)


Mais uma pérola do cinema europeu de horror, numa co-produção entre França, Espanha e Áustria, lançado por aqui em DVD na coleção “Clássicos do Terror”, da “Vinny Filmes”, com direção e roteiro de Jesus Franco e fotografia em preto e branco. 

Sequência de “O Terrível Dr. Orloff” (1962), a história agora apresenta as atividades sinistras do cientista Dr. Conrad Fisherman, interpretado por Marcelo Arroita-Jáuregui (teve uma versão do filme onde seu sobrenome era Jekyll, e por isso um dos inúmeros títulos foi “As Amantes do Dr. Jekyll”). Ele foi discípulo do cientista Dr. Orloff, que em seu leito de morte, repassou uma série de anotações sobre estudos envolvendo ondas de rádio ultrasônicas que permitiriam gerar movimentos num ser humano morto. De posse dessas informações, o Dr. Fisherman realiza experiências em seu laboratório num tétrico castelo, e consegue trazer de volta para caminhar entre os vivos seu irmão Andros (Hugo Blanco), assassinado por ele numa reação passional por causa da traição de sua esposa infeliz, Ingrid (Luisa Sala). 

Uma vez controlando as ações do zumbi, o cientista utiliza-o para matar violentamente por estrangulamento várias mulheres nos arredores, colocando também em risco a vida de sua jovem sobrinha Melissa (Agnes Spaak), que acabara de chegar ao castelo e descobre uma terrível relação com o autor das mortes. E também despertando a atenção de uma investigação policial liderada pelo Inspetor Klein (Pastor Serrador). 

Filme que faz parte da safra de histórias góticas criadas e dirigidas pelo cultuado cineasta espanhol Jesus Franco, numa atmosfera sombria de constante mistério, não faltando o tradicional cientista louco e sua criatura, um assassino de luvas pretas.

As Amantes do Dr. Jekyll (Les Maîtresses Du Dr. Jekyll / El Secreto del Dr. Orloff, França / Espanha / Áustria, 1964)
(RR – 13/07/14)

Rasputin: O Monge Louco (Rasputin: The Mad Monk, 1966)


Produção inglesa do cultuado estúdio “Hammer” e com o ícone do horror Christopher Lee no papel principal, numa história inspirada na vida real de Rasputin, um monge com supostos poderes místicos, e que conseguiu se infiltrar no alto escalão da política na Rússia no início do século XX. 

No filme, Grigori Rasputin (interptetado por Lee), é expulso de um monastério por causa de seu comportamento devasso, sempre envolvido com mulheres e bebida alcoólica. Porém, devido seus supostos poderes de cura e hipnose, conseguiu conquistar a confiança da Czarina (Renée Asherson) e se infiltrou no poder político da Rússia, ganhando inimigos e detratores interessados em sua morte. Com a típica ambientação dos filmes da Hammer, não faltando tabernas cheias de bêbados e castelos imponentes, o grande destaque certamente é a atuação de Christopher Lee, mais conhecido pelos papéis do conde vampiro Drácula. Porém, dessa vez ele mostra outro lado de seu talento artístico, fazendo o papel de um homem misterioso que exagera na bebida, dança com habilidade, conquista mulheres e é temido pelos homens. 

(RR – 26/12/13)

Queen of Blood (EUA, 1966)


Ficção científica bagaceira dos anos 60 do século passado, com direção e roteiro de Curtis Harrington, o mesmo de outras tranqueiras como O Planeta Pré-histórico (Voyage to the Prehistoric Planet, 1965). O elenco tem nomes conhecidos como o veterano Basil Rathbone e os sempre presentes John Saxon e Dennis Hopper. A produção é de Roger Corman e Samuel Z. Arkoff, e foi distribuído pela AIP (American-International Pictures). A história é ambientada em 1990 (no futuro da época de produção), e a humanidade trabalha unida numa agência espacial international. Eles recebem uma transmissão de rádio com uma raça alienígena se comunicando informando a intenção em visitar nosso planeta. Porém, a nave deles sofre um acidente e cai no caminho em Marte, forçando o envio de uma equipe de resgate da Terra. Sob o comando do cientista Dr. Farraday (Basil Rathbone), coordenando os trabalhos na base, uma nave terráquea é enviada levando os astronautas Anders Brockman (Robert Boon), Paul Grant (Dennis Hopper) e Laura James (Judi Meredith). Após não encontrarem sobreviventes na nave alienígena, outro foguete pousa num satélite de Marte, com os astronautas Allan Brenner (John Saxon) e Tony Barrata (Don Eitner), e lá eles localizam uma pequena nave auxiliar alienígena com misteriosa mulher de pele verde (Florence Marly), que é resgatada. Os astronautas humanos então se encontram e rumam de volta para casa, porém a hóspede de outro planeta revela um desejo mortal pelo sangue dos humanos (daí um dos títulos originais do filme). 

Produção de baixíssimo orçamento com todos os clichês típicos dos filmes bagaceiros (e por isso mesmo divertidos) de FC com elementos de Horror das décadas de 1950 e 60. Os efeitos especiais das naves viajando pelo espaço foram retirados de filmes russos do mesmo período. Curiosamente, temos a presença numa ponta do colecionador e editor Forrest J. Ackerman, responsável pela revista Famous Monsters of Filmland, como o ajudante do Dr. Farraday. Já o renomado ator Basil Rathbone teve uma participação especial tanto neste como no anterior O Planeta Pré-histórico, emprestando seu prestígio para a produção. No Brasil, segundo o livro Ficção Científica (1986), de Gilberto Schoereder, o filme recebeu o nome de Planeta Sangrento.

(RR – 23/07/13)

The Monolith Monsters (Rastros do Espaço, EUA, 1957)


Produção menor da “Universal”, dirigido por John Sherwood e com fotografia em preto e branco, vindo da saudosa década de 1950, um período fértil em filmes bagaceiros de FC & Horror com histórias absurdas e por isso mesmo super divertidas. 

Nesse caso, um meteoro chega à Terra trazendo misteriosas pedras negras que em contato com água crescem de forma descomunal, transformando-se em imensos monolitos monstruosos (daí o título original), que desabam destruindo tudo ao redor e gerando novas pedras num processo contínuo de crescimento e destruição, impulsionado pelas chuvas. Além também de trazer o horror para as pessoas que entram em contato com essas pedras, as quais retiram o silício de seus corpos, endurecendo a carne e transformando suas vítimas em estátuas solidificadas. Uma pequena cidade no deserto americano, San Angelo, no Estado da California, através de um geólogo, Dave Muller (Grant Williams), tenta impedir o avanço dos monolitos gigantes procurando uma solução para deter a ameaça.

Rastros do Espaço é uma daquelas tranqueiras divertidas, de curta duração (só 77 minutos), com um roteiro baseado em história de Jack Arnold, mais conhecido como diretor de preciosidades como Veio do Espaço (1953), O Monstro da Lagoa Negra (1954), Tarântula (1955) e O Incrível Homem Que Encolheu (1957), este que também tem Grant Williams como protagonista. A ideia central procura especular sobre os perigos que chegam ao nosso planeta através das quedas de meteoros, e seus segredos ancestrais vindos do espaço que podem resultar em terríveis ameaças para a humanidade.

(RR – 06/05/13)

The Lost World (O Mundo Perdido, 1960)


Baseado em livro homônimo de Arthur Conan Doyle e com direção de Irwin Allen, o criador de nostálgicas e memoráveis séries de TV dos anos 60 do século passado, como Perdidos no Espaço, Viagem ao Fundo do Mar, Terra de Gigantes e O Túnel do Tempo. E também produtor de clássicos do subgênero “catástrofe”, como O Destino do Poseidon (1972) e Inferno na Torre (1974). Além dessas ótimas credenciais, O Mundo Perdido tem em seu elenco Claude Rains (O Homem Invisível, 1933 e O Fantasma da Ópera, 1943), Michael Rennie (O Dia Em Que a Terra Parou, 1951) e David Hedison, o Capitão Crane da série Viagem ao Fundo do Mar e o “cientista louco” de A Mosca da Cabeça Branca (1958). 

O excêntrico Prof. George Edward Challenger (Claude Rains) consegue reunir uma expedição científica com destino à Amazônia, para localizar e explorar um imenso platô onde supostamente ainda existem dinossauros gigantes. O grupo ainda conta com um famoso aventureiro, Lord John Roxton (Michael Rennie), um jornalista, Ed Malone (David Hedison), outro cientista, o Prof. Summerlee (Richard Haydn), a filha de um investidor da expedição, Jennifer Holmes (Jill St. John), o jovem irmão dela, David (Ray Stricklyn), e dois homens da região do Amazonas, Costa (Jay Novello) e o piloto de helicóptero Manuel Gomez (Fernando Lamas). Chegando à região misteriosa, eles encontram dinossauros e índios nativos hostis, e depois que o helicóptero é destruído, o desafio é conseguir encontrar um meio de sair do “mundo perdido”, retornar para a civilização com vida e se possível, trazendo alguma prova da existência dos monstros pré-históricos. 

Clássico da saudosa “Sessão da Tarde”, da época quando ainda eram exibidos filmes antigos e divertidos. “O Mundo Perdido” é uma aventura com elementos de ficção científica e humor, onde o destaque é a forma como são mostrados os dinossauros. Numa época sem a tecnologia de computação gráfica para a criação dos monstros, Irwin Allem preferiu não utilizar os tradicionais bonecos em “stop motion” e optou por filmar ainimais vivos (lagartos maquiados com chifres) caminhando sobre cenários em miniatura, com a perspectiva de filmagem por baixo, dando a sensação de serem monstros gigantescos. Curiosamente, vale citar que o livro de Conan Doyle teve várias outras adaptações para o cinema, sendo a primeira em 1925, na época do cinema mudo. Teve também um telefilme em 1999 que originou uma série de TV produzida até 2002. 

Fiend Without a Face (O Horror Vem do Espaço / Monstro Sem Face - 1958)


Produção inglesa com fotografia em preto e branco, dirigida por Arthur Crabtree e com roteiro baseado na história The Thought Monster, de Amelia Reynolds Long. Filme curto (apenas 75 minutos) da década de 1950 do século passado, com história absurdamente divertida, e com dois títulos nacionais. O primeiro e mais coerente pela tradução literal, Monstro Sem Face (conforme o livro “Ficção Científica”, de Gilberto Schoereder, 1986), e o outro pessimamente escolhido quando lançado em DVD, O Horror Vem do Espaço, pois a história não tem relação com algo vindo do espaço. 
As ações se passam numa base militar americana e canadense, que trabalha com pesquisas com energia nuclear para o desenvolvimento de um potente radar atômico que possibilitaria espionar atividades suspeitas na antiga União Soviética, durante o conturbado período da guerra fria. Porém, soldados e moradores de uma pequena cidade próxima, aparecem mortos e estampando o horror em suas faces desesperadas. O Major Cummings (Marshall Thompson) é destinado para invertigar os misteriosos assassinatos e em paralelo, tenta defender a mocinha Barbara Griselle (Kim Parker), irmã de uma das vítimas dos demônios invisíveis. Ele descobre relações entre as bizarras experiências de um cientista, Prof. Walgate (Kynaston Reeves), com a materialização de pensamentos e a influência destrutiva da energia radiativa dos reatores atômicos da base militar, criando monstros inicialmente “sem rostos” e depois visíveis na forma grotesca de um cérebro com espinha dorsal. 

Percebemos aqui uma influência e relações com a ideia central do clássico de FC Planeta Proibido (1956), onde um terrível monstro invisível, criado pela mente perturbada de um cientista, ataca um grupo de astronautas que chegam num planeta colonizado por humanos. 

Com efeitos especiais de “stop motion” complexos para a época, ao mostrar os monstros e seus movimentos de ataque, e situado dentro do ambiente que retrata a paranóia da guerra fria e o medo dos efeitos nocivos da energia nuclear, o filme O Horror Que Vem do Espaço (na verdade, que vem do “pensamento”), é mais uma garantia de diversão para quem aprecia essas preciosas tranqueiras do cinema bagaceiro antigo de FC & Horror.

(RR – 26/05/13)

Torture Garden (As Torturas do Dr. Diabolo - 1967)

Produção inglesa do também cultuado estúdio Amicus, de Max Rosenberg e Milton Subotsky, rival da Hammer, com direção de Freddie Francis, de diversos filmes de horror dos nos 60 e 70 como O Monstro de Frankenstein (1964), A Maldição da Caveira (1965) e A Essência da Maldade (1973). 

Trata-se de uma antologia de contos de horror com roteiro de Robert Bloch, autor do clássico “Psicose”, e no elenco temos nomes consagrados como Jack Palance, Peter Cushing e Burgess Meredith. Com esses créditos indicando a qualidade dos realizadores, já dá para imaginar a diversão garantida. 
Em As Torturas do Dr. Diabolo, um título nacional sonoro, uma atração de circo com foco no horror é apresentada pelo Dr. Diabolo (Meredith), que convida os espectadores a conhecer situações trágicas em seus destinos futuros, ao olharem fixamente para a imagem da deusa dos destinos Átropos (da mitologia grega). São apresentadas então quatro histórias de horror. A primeira chama-se Enoch e mostra um homem ganancioso, Colin Williams (Michael Bryant) visitando o tio doente interessado na herança de sua misteriosa riqueza, e não imagina o terrível segredo que envolve sua casa, habitada anteriormente por uma bruxa. Em seguida temos Terror Over Hollywood, onde uma atriz ambiciosa, Carla Hayes (Beverly Adams), não mede esforços para conseguir um papel de destaque no cinema, envolvendo-se com um produtor, Eddie Storm (John Phillips) e um veterano e famoso ator, Bruce Benton (Robert Hutton), que também escondem um misterioso segredo sobre suas longevidades. O terceiro episódio, Mr. Steinway, apresenta um famoso pianista, Leo Winston (John Standing), que se apaixona pela bela Dorothy Endicott (Barbara Ewing), mas não consegue manter o romance por causa de um piano amaldiçoado. A última história, The Man Who Collected Poe, tem Jack Palance no papel de Ronald Wyatt, um obcecado colecionador de livros e objetos do cultuado escritor americano de horror Edgar Allan Poe. Ele visita outro colecionador, Lancelot Canning (Peter Cushing), que entre livros e manuscritos raríssimos, também esconde um terrível segredo sobre o próprio escritor Poe. 
Todos os episódios são muito bons, carregados de elementos de horror e até FC (no segundo episódio), e que ficam guardados por muito tempo em nossas memórias. Como o sinistro gato preto Balthazar, da primeira história, ou o piano assassino tocando a marcha fúnebre, do terceiro conto, ou ainda a dupla Palance e Cushing obcecada pela literatura sombria de Edgar Allan Poe, com graves consequências. 

Curiosamente, As Torturas do Dr. Diabolo é o sucessor direto de outro filme de antologia de contos também produzido pela Amicus e dirigido por Freddie Francis, As Profecias do Dr. Terror (Dr. Terror´s House of Horrors, 1965), com Christopher Lee e Peter Cushing. 

(RR – 27/12/13)

The Thing With Two Heads (O Monstro de Duas Cabeças - 1972)


O Monstro de Duas Cabeças (The Thing With Two Heads, EUA, 1972) é um filme bagaceiro de “cientista louco” do início dos anos 70 do século passado. 

Um famoso e bem sucedido cirurgião médico, Maxwell Kirshner (Ray Milland), está doente terminal e vê num ousado plano de transplante de sua cabeça e cérebro brilhante no corpo de outra pessoa, como a única forma de manter a sobrevivência. Porém, extremamente racista, com a piora rápida de sua saúde, ele não imaginaria que a única opção disponível era um homem negro presidiário no corredor da morte e que alega inocência, Jack Moss (Rosey Grier, primo da bem mais conhecida Pam Grier). A ideia após o transplante é adaptar o corpo para a nova cabeça e depois eliminar a original. A cirurgia tem sucesso e um “monstro de duas cabeças” foi criado, causando uma série de transtornos após fugir do hospital, sendo perseguido pelos médicos que realizaram a operação e pela polícia incompetente. 
Divertida tranqueira com elementos de horror e ficção científica e um roteiro tão absurdo que seus realizadores tiveram que flertar com o humor em diversas situações para não ficar tão ridículo, devido às cenas inevitavelmente hilárias. O excelente ator Ray Milland é conhecido por estrelar preciosidades do cinema fantástico como Obsessão Macabra (1962), Pânico no Ano Zero (1962), O Homem dos Olhos de Raio-X (1963), A Invasão das Rãs (1972) e Galáctica – Astronave de Combate (1978), entre outras. Destaque para uma enorme sequência de perseguição de quatorze carros da polícia contra a “coisa de duas cabeças” fugindo pilotando uma moto numa área descampada fora da cidade. 
Curiosamente, o famoso técnico em maquiagem Rick Baker (de Nasce um Monstro, O Incrível Homem Que Derreteu, Grito de Horror, Pague Para Entrar, Reze Para Sair, Um Lobisomem Americano em Londres e Videodrome – A Síndrome do Vídeo, entre outros), faz uma ponta vestindo a roupa de um gorila que serviu de cobaia para um transplante de cabeça. Mais uma curiosidade é que um ano antes, em 1971, tivemos outro filme com temática similar, O Incrível Transplante de Duas Cabeças (The Incredibre Two-Headed Transplant), com Bruce Dern e Pat Priest.

Bad Taste (Trash, Náusea Total - 1987)

Publicado originalmente no blog Juvenatrix Data: 13/02/05

A Editora Van Blad lançou no formato VCD com distribuição nas bancas de jornais no início de Fevereiro de 2005 pela revista VCD Collection ano 1, número 4, o primeiro trabalho de maior porte do cineasta Peter Jackson, responsável por Meet the Feebles (89), Fome Animal (92), Os Espíritos (96) e a trilogia de O Senhor dos Anéis (2001/02/03). Trata-se de Trash, Náusea Total (Bad Taste, 87), que já havia sido lançado no Brasil no formato VHS e fora de catálogo há muito tempo.

É um filme de baixo orçamento e muita violência e sangue, onde Peter Jackson fez de tudo, desde atuar em dois papéis diferentes, dirigir, produzir, escrever o roteiro, editar e até criar os efeitos especiais e a maquiagem, além da direção da fotografia, filmando nos finais de semana com amigos e uma câmera 16 mm. Inicialmente, a idéia era apenas um projeto de curta metragem com cerca de dez minutos, abordando basicamente uma história de canibais e que chamava-se Roast of the Day (algo como “O Assado do Dia”), com os trabalhos se iniciando em 1983. Porém, com o passar do tempo foram surgindo novas idéias e com o lançamento bem sucedido de The Evil Dead, de Sam Raimi, o filme de Peter Jackson foi aumentado para quase uma hora e meia em quatro anos de filmagens, e o roteiro recebeu mudanças interessantes passando a se chamar “Bad Taste”, ou Mau Gosto/Sabor Ruim em traduções literais. Aliás, o nome nacional escolhido é até interessante pois Náusea Total é bastante coerente com a história (sem o desnecessário “Trash” colocado para aproveitar a moda “trashmania” que surgiu no Brasil na época).


Um coletor de impostos, Giles Copland (Craig Smith), vai até uma pequena cidade do interior da Nova Zelândia chamada Kaihoro, e encontra tudo estranhamente vazio, sendo surpreendido pela perseguição de um psicopata armado com uma faca enorme, Robert (Peter Jackson, com barba). Ao pedir socorro numa das casas, Giles é recebido por um grupo de alienígenas disfarçados de humanos, que o capturam para tornar-se o cardápio. Os extraterrestres vieram ao nosso planeta com o objetivo de estocar carne humana para vender como alimento numa famosa rede intergaláctica de restaurantes chamada de "Deliciosas Mordidas” (que por sua vez precisava apresentar uma iguaria diferente aos seus clientes para combater a concorrente “Frituras Lunáticas”).


Porém, para enfrentá-los e salvar o coletor de impostos de se tornar janta dos alienígenas canibais, surge um grupo bizarro de agentes especiais fortemente armados, representando o Serviço de Defesa e Investigação Alienígena (ou A.I.D.S. – Alien Investigation and Defense Service) do governo neozelandês. O grupo é formado pelo nerd Derek (Peter Jackson, sem barba), companheiro de Barry (Pete O´Herne), além da dupla Frank (Mike Minett) e Ozzy (Terry Potter).



O filme é uma paródia super divertida e extremamente sangrenta, repleta de situações hilárias e fortes cenas de violência com direito a cabeças explodidas à bala, banhos de sangue em profusão, vísceras expostas, desmembramentos, dilacerações, canibalismo, e todo tipo de atrocidades. Algumas cenas são antológicas e que merecem destaque como quando o alienígena Robert vomita uma imensa gosma verde num prato, a qual é considerada um delicioso mingau que deve ser experimentado pelos companheiros, obrigando o agente Frank disfarçado a comer um pouco da fina iguaria. Ou ainda quando o outro agente especial Ozzy (que lembra um soldado tipo “Rambo”) dispara uma arma enorme contra a casa onde os alienígenas estão escondidos, e o imenso projétil atravessa as janelas abertas e acerta uma ovelha que estava pastando distraída nos fundos, explodindo o bicho num monte de sangue e carne destroçada. 


Algumas homenagens também podem ser reparadas como numa cena onde Peter Jackson referencia o momento de dormir dos integrantes da família de Os Waltons, famosa série de TV dos anos 70. Ou ainda num cena homenageando o clássico moderno O Iluminado (1980), quando Derek está enlouquecido depois de bater a cabeça e perder partes do cérebro (e também de misturar pedaços de cérebros dos alienígenas ao seu próprio), e arrombar uma porta com uma serra elétrica, numa cena similar àquela de Jack Nicholson no filme de Stanley Kubrick. 


Sem contar a completamente estranha e hilária nave espacial dos alienígenas (que só rivaliza com a nave de Palhaços Assassinos/Killer Clowns From Outer Space, 88). Aliás, uma curiosidade é que não existem mulheres entre os principais personagens (existem apenas uma ou outra embaixo de fantasias interpretando alienígenas masculinos). E o cineasta multifuncional Peter Jackson durante o período em que filmava Trash, Náusea Total (quatro longos anos), conheceu a roteirista Francis Walsh, que se tornou sua esposa e parceira em muitos trabalhos posteriores como a badalada saga O Senhor dos Anéis. 



Trash, Náusea Total é recomendado para todos aqueles que apreciam o cinema fantástico de baixo orçamento, produções menores e mais caseiras com histórias bizarras e não convencionais. É indicado também para os fãs do cineasta Peter Jackson, que antes de tornar-se mundialmente conhecido pela trilogia de O Senhor dos Anéis, já fazia seus filmes baratos com temas escatológicos. E para os colecionadores de filmes, certamente vale a pena adquirir o VCD distribuído nas bancas de jornais, como um item indispensável em qualquer videoteca de horror. 


A Editora Van Blad, a exemplo do que já havia ocorrido com o lançamento anterior do VCD de O Túnel do Horror (uma antologia com um episódio baseado em conto de Stephen King), cometeu novamente alguns equívocos que inevitavelmente incomodam. A começar pela capa do VCD, informando duas vezes que o filme é do diretor Peter Jackson (bastava uma única vez, não precisava mencionar o fato no topo e embaixo da ilustração de capa). Porém, eles acertaram em reproduzir o cartaz original, onde um alienígena faz um gesto obsceno com o dedo médio (nos Estados Unidos, houve um fato ridículo sobre a distribuição do vídeo, onde acrescentaram mais um dedo ao lado do dedo médio do alienígena, não simulando mais um gesto obsceno e sim um dispensável sinal tipo “paz e amor”). 


Na contra capa do VCD, a sinopse tem um erro grotesco, mencionando que o filme tem muitas “decepções”, onde provavelmente eles queriam dizer "decepamentos” (pois a palavra “decepação” não existe no famoso dicionário da língua portuguesa Aurélio). Sem contar que quem fez a arte final trocou uma simples palavra no nome de Peter Jackson, que ficou como “Oeter”. Tem também a informação “Tempo VCD: 60 min”, que não faz o menor sentido, já que o filme tem 88 minutos e não foi cortado (ainda bem...). A editora deveria se preocupar mais com o trabalho de revisão para a arte final das capas do VCD. 


Já a revista VCD Collection número 4, tem como maior erro colocar na capa uma foto onde destaca um “orc” de O Senhor dos Anéis, quando o certo deveria ser uma imagem relacionada ao filme que está sendo lançado pela revista, ou seja, um cartaz ou foto de Bad Taste.



“Trash, Náusea Total” (Bad Taste, Nova Zelândia, 1987). Duração: 88 minutos. Direção, produção, roteiro, fotografia, edição, efeitos especiais e maquiagem de Peter Jackson. Música de Michelle Scullion. Elenco: Peter Jackson (Derek / Robert), Barry (Pete O´Herne), Frank (Mike Minett), Ozzy (Terry Potter), Craig Smith (Giles Copland), Doug Wren (Líder alienígena), Dean Lawrie, Peter Vere-Jones, Ken Hammon, Robin Griggs, Michael Gooch, Peter Gooch, Laurie Yarrall, Shane Yarrall, Philip Lamey.

Starship Troopers (Tropas Estelares - 1997)


“No futuro ainda existirão guerras em nome da honra, da glória e da sobrevivência. Só o inimigo mudará.”

O diretor holandês Paul Verhoeven, conhecido por ótimos trabalhos no cinema fantástico como “Robocop, o Policial do Futuro”, com Peter Weller, “O Vingador do Futuro”, com Arnold Schwarzenegger, e “O Homem Sem Sombra”, com Kevin Bacon, também é o cineasta responsável por um dos mais divertidos filmes de Ficção Científica com elementos de Horror desde o clássico “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979), de Ridley Scott.

Trata-se de “Tropas Estelares” (Starship Troopers, 97), baseado em livro homônimo de Robert A. Heinlein escrito em 1959, e que pode ser considerado um dos ápices da filmografia de FC com o Horror em seu estado mais puro, associado à violência insana da guerra. Pois não faltam cenas impressionantes de batalhas entre homens e insetos alienígenas, com direito a um enorme volume de sangue jorrado em profusão, com uma infinidade de corpos mutilados, desmembrados, dilacerados e destroçados de uma forma extremamente selvagem, evidenciando a fragilidade dos corpos dos seres humanos, entre carne, sangue, músculos e ossos.   

A história é ambientada num futuro onde a humanidade está em guerra com uma raça alienígena de insetos e as pessoas são classificadas entre civis e cidadãos, não existindo mais a democracia que fracassou através dos cientistas sociais que levaram o caos ao planeta, passando o comando aos militares, chamados de veteranos. Os cidadãos são aqueles que se alistam no exército aceitando a responsabilidade pelo corpo político e defendendo-o com suas próprias vidas. Na televisão são exibidas aquelas mensagens de convocação da população para o alistamento militar, verdadeiros comerciais para o recrutamento de soldados, tipicamente inspirados nas propagandas políticas fascistas, explicando ao civil porque ele deve se unir às Tropas da Federação. A televisão também é um meio de propagação da violência, onde execuções de criminosos na cadeira elétrica são transmitidas ao vivo.


Enquanto isso, os insetos alienígenas são uma espécie de aracnídeos que evoluíram em milhões de anos chegando a colonizar planetas, com a vantagem de não demonstrarem medo, enfrentando a morte com frieza, e sendo liderados por um cérebro inteligente. Eles possuem uma estrutura hierárquica militar similar aos exércitos humanos e são muito mais fortes fisicamente e extremamente violentos, não fazendo prisioneiros e sendo abatidos apenas quando seus sistemas nervosos são atingidos. Os insetos são oriundos de uma outra galáxia, do planeta Klendathu, que orbita um sistema estelar duplo cujas forças gravitacionais produzem uma infinidade de meteoros na forma de um cinturão de asteróides. Eles utilizam esses meteoros para atacar a Terra, causando uma guerra definitiva entre as espécies para a sobrevivência apenas de uma das raças.

Dentro desse contexto conturbado, a ação volta-se para o chamado “paraíso latino”, numa escola em Buenos Aires onde estudam o jovem filho de uma família rica, Johnny Rico (Casper Van Dien), sua namorada filha de um militar, a bela Carmen Ibanez (Denise Richards), que pretende ser piloto da frota, e dois amigos em comum do casal, o sensitivo e inteligente Carl Jenkins (Neil Patrick Harris), e a bela Dizzy Flores (Dina Meyer), apaixonada por Johnny e que pretende se alistar na infantaria. Para impressionar a namorada, e contra a vontade de seus pais, Johnny se alista na Infantaria junto com Dizzy, enquanto Carl é recrutado para servir na Inteligência Militar e Carmen vai para a Aeronáutica seguir carreira.  

Os treinamentos tem início. Enquanto Johnny e Dizzy conhecem na Infantaria outros soldados como Ace Levy (Jake Busey), sendo coordenados pelo severo Sargento Zim (Clancy Brown), Carmen encontra na frota um antigo colega de escola e agora instrutor, Zander Barcalow (Patrick Muldoon), além de conhecer a Capitã Deladier (Brenda Strong), onde juntos fazem parte da tripulação da enorme nave estelar “Rodger Young”.


Durante o período de treinamentos, um ataque catastrófico dos insetos alienígenas ao enviarem um asteróide para aniquilar Buenos Aires, é o impulso definitivo para decretar a guerra. Um planejamento estratégico pelo governo militar é então preparado e os humanos realizam uma forte investida contra o planeta dos insetos, porém uma vez subestimando a capacidade de defesa dos inimigos aracnídeos, os pelotões de infantaria são terrivelmente massacrados com mais de 300.000 soldados mortos em poucas horas de combate, além de outras perdas significativas da frota com ataques de plasma enviados da superfície do planeta pelos insetos tanque.

Após reorganizar seus exércitos com uma nova estratégia de combate, a humanidade parte para uma nova ofensiva contra os insetos, na tentativa de capturar o líder e cérebro dos inimigos, com um bombardeio aéreo seguido de um ataque por terra com a infantaria, liderada pelo Tenente Jean Rasczak (Michael Ironside), numa série de confrontos determinantes para a sobrevivência de apenas uma espécie.

“Pensar por si próprio é a única liberdade que temos.” – Jean Rasczak, professor e Tenente da infantaria

“Tropas Estelares” é o filme que eu mais assisti no menor espaço de tempo. Foram cinco vezes, uma no cinema em 1998, três na televisão aberta, e finalmente outra vez em vídeo DVD, repleto de extras interessantes. São vários os motivos para gostar tanto desse filme, mas o principal é a união de uma temática de ficção científica com fortes elementos de horror e guerra, num conjunto determinante para uma história bastante intensa de ação e violência de um campo de batalha, com a vantagem dos eventos ocorrerem num universo fictício num confronto dos humanos contra insetos alienígenas, não deixando de lado uma oportuna crítica à “irracionalidade” conhecida da humanidade em idolatrar as armas e a guerra, preferindo resolver seus conflitos sempre com a violência e enaltecendo os vários modelos políticos militares baseados em repressão.

Olhando apenas pelo lado da diversão, objetivo maior do cinema, “Tropas Estelares” garante duas horas do mais puro entretenimento, principalmente pelas cenas de batalha e os corpos dos soldados sendo destroçados pelos insetos. O filme pode ser dividido em duas partes, sendo a primeira bem inferior, voltada para a apresentação dos personagens, na maioria formados por jovens preocupados também com amores adolescentes. Aqui reside os pontos negativos do filme, com o roteiro abusando do uso daqueles clichês descartáveis, enfatizando demais os relacionamentos amorosos de um grupo de jovens divididos entre a escola e o alistamento militar. Nessa primeira metade de “Tropas Estelares”, ocorre também a introdução de alguns elementos importantes da história como a existência dos insetos alienígenas ameaçadores para a sobrevivência da Terra e a consequente guerra com a humanidade. A segunda parte, a partir da metade do filme, é bem melhor ao evidenciar a brutalidade insana da guerra, com as realistas cenas de batalhas aéreas e na superfície, com os brutais massacres tanto de insetos (espalhando seu sangue verde) quanto principalmente de homens (manchando a tela de vermelho), tendo suas carnes frágeis sendo rasgadas por enormes garras afiadas. Nesse momento, “Tropas Estelares” atinge um ritmo frenético de violência digno de se manter na eterna lembrança dos apreciadores do cinema fantástico.

Duas cenas em especial merecem registro pela intensidade de ação e impecável produção. A primeira é quando o soldado Johnny Rico consegue a proeza de explodir um enorme inseto tanque, ao conseguir depositar em seu interior uma bomba. A outra cena é a eletrizante e incrível carnificina ocorrida no Forte Whiskey, uma estrutura de defesa construída pelos humanos em solo alienígena. Um pequeno grupo de soldados é encurralado numa emboscada por um imenso exército de insetos, que promovem um massacre devastador, numa sequência que rivaliza com a fantástica batalha no “Abismo de Helm” em “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres” (2002), que mostra uma imensidão de flechas voando pelos ares e escadas cheias de orcs tentando invadir as estruturas de pedra de uma fortaleza guardada por humanos e elfos, e também com a cena de abertura de “O Resgate do Soldado Ryan” (98), que mostra a invasão dos aliados na costa da Normandia na Segunda Guerra Mundial, sendo recebidos à bala pelos alemães num massacre perturbador. Essas são três das mais intensas sequências de guerra produzidas pelo cinema, independente de ser ou não uma história de fantasia com personagens fictícios, ou a reprodução de um fato real e sangrento da história da humanidade, com destruidoras armas de fogo matando homens. Analisando exclusivamente como cinema de guerra, esses exemplos caracterizam o que mais próximo seria o horror de um campo de batalha. O inferno existe e é a guerra.

É curioso notar que “Tropas Estelares” também não deixa de explorar a rivalidade existente entre a infantaria e a frota, onde os primeiros são treinados exclusivamente para matar os inimigos ou morrer tentando, e já os pilotos são considerados de uma elite superior pela responsabilidade em conduzir as aeronaves. Um frase indignada de Johnny Rico reforça bem essa ideia: “A infantaria morre enquanto a frota voa.”         

Com um orçamento em torno de US$ 80 milhões, o filme recebeu uma merecida indicação ao cobiçado prêmio “Oscar” pelos excelentes efeitos especiais, os quais levaram cerca de um ano para serem finalizados, entre a construção das belíssimas naves espaciais (sob a responsabilidade de Scott E. Anderson), e a criação do exército dos insetos alienígenas, dividido entre a infantaria (soldados), tanques (insetos de mais de 30 metros de comprimento), e a aeronáutica (insetos voadores), num precioso trabalho supervisionado por Phil Tippett. O trabalho dos efeitos visuais foram obtidos numa combinação de esforços entre as empresas “Sony Image Works”, “Industrial Light and Magic” e “Boss Film”. 


“Tropas Estelares” foi lançado em DVD no Brasil pela “Buena Vista Home Entertainment”, num disco repleto de interessante material extra em aproximadamente 30 minutos, e quase tudo legendado em português. Além de poder conferir o filme, temos acesso à vários bônus como um trailer; testes de duas cenas com os personagens Johnny Rico e Carmen Ibanez; uma apresentação com informações de bastidores da produção; um documentário com a elaboração de algumas cenas com comentários do diretor Paul Verhoeven, como a destruição de uma nave enorme num ataque dos insetos, a sequência onde Rico explode um inseto tanque, e a cena onde um soldado é perseguido e morto violentamente por um inseto; além de cinco cenas excluídas da edição final do filme. Como material extra ainda temos a exibição do filme com comentários em áudio do diretor, porém em inglês sem legendas.  

O sucesso de “Tropas Estelares” acabou inevitavelmente impulsionando uma franquia, e além de uma série de animação já produzida para a televisão, foi lançada em 2004 uma continuação chamada “Tropas Estelares 2” (Starship Troopers 2: Hero of the Federation), com direção de Phil Tippett (um dos produtores e supervisor dos efeitos visuais dos insetos no filme original), e novamente roteiro de Ed Neumeier. O elenco foi formado por jovens desconhecidos como Richard Burgi, Colleen Porch, Bill Brown, Ed Quinn e Drew Powell, entre vários outros. Curiosamente a atriz Brenda Strong, que fez a Capitã Deladier no original, e que morreu na queda de sua nave num ataque dos insetos, volta agora na continuação na pele de outro personagem, a Sargento Dede Rake. A história do novo filme é ambientada cinco anos após os eventos do primeiro e acrescenta algumas novidades ao já conhecido universo ficcional dos insetos alienígenas, que agora serão capazes de transmitir um vírus capaz de transformar os humanos em zumbis. Eles ainda não foram dominados totalmente na guerra com a humanidade e as ações se passam dessa vez num remoto planeta, com cenas de batalhas sangrentas. E ainda em 2008 foi produzido mais um filme, “Starship Troopers 3: Marauder”, novamente com Casper Van Dien, que agora é o Coronel Johnny Rico. 

“O único inseto bom é um inseto morto.”

O diretor Paul Verhoeven nasceu em 1938, e em sua carreira destacam-se outros filmes interessantes como “Conquista Sangrenta” (85), “Robocop” (87), “O Vingador do Futuro” (90), “Instinto Selvagem” (92) e “O Homem Sem Sombra” (2000). Ele também dirigiu em 95 “Showgirls”, muito criticado e considerado o seu pior trabalho.


O roteiro de “Tropas Estelares” é de Ed Neumeier, que também foi o autor da história de “Robocop”, inspirando uma franquia com mais dois filmes e duas séries de TV. Ele utilizou como base para o filme o livro homônimo do escritor americano Robert A. Heinlein (1907 / 1988), um dos mais cultuados autores de Ficção Científica da história do gênero, figurando num grupo seleto formado ainda por Isaac Asimov e Arthur Clarke, entre outros nomes consagrados. Entre outros trabalhos importantes no cinema, Heinlein escreveu o roteiro do clássico de FC “Destino: Lua” (Destination Moon, 1950), baseado em sua própria novela chamada “Rocketship Galileo”.

O elenco é formado basicamente por jovens pouco conhecidos na época como Casper Van Dien, Denise Richards, Dina Meyer e Jake Busey, sendo liderados pela experiência de Michael Ironside, ator canadense nascido em 1950 e dono de um currículo com mais de 120 filmes, entre eles, “Scanners – Sua Mente Pode Destruir” (81), de David Cronenberg, “Baile de Formatura 2” (87), “O Vingador do Futuro”, “Highlander 2” (91), e “Colheita Maldita 7” (2001), além da série televisiva “V – A Batalha Final” (84).

Casper Van Dien é americano nascido na Florida em 1968, tendo uma filmografia com mais de 40 participações, e entre elas, no divertido filme “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (99), de Tim Burton. Denise Richards nasceu em 1971 no Estado americano de Illinois, e entre seus filmes estão “Garotas Selvagens” (98), “007 – O Mundo Não é o Bastante” (99) e o descartável thriller de horror adolescente “O Dia do Terror” (Valentine, 2001). Já Dina Meyer nasceu em 1968 em New York e entre seus filmes estão “Johnny Mnemonic” (95), “Coração de Dragão” (96), “D-Tox” e “Star Trek: Nêmesis” (ambos de 2002). E Jake Busey nasceu na California em 1971, sendo filho do veterano ator Gary Busey. Entre seus filmes podemos citar a comédia de horror “Os Espíritos” (96), de Peter Jackson, a FC “Contato” (97), e o excepcional thriller “Identidade” (2003).

“Em todas as épocas os motivos para se lutar sempre foram do próprio Homem, mas no futuro a maior ameaça para a nossa sobrevivência não será o Homem. Agora a juventude do amanhã precisa viajar através das estrelas para encarar um inimigo muito mais devastador do que todos que já foram imaginados.”

Tropas Estelares (Starship Troopers, Estados Unidos, 1997). Touchstone / Tristar. Duração: 119 minutos. Direção de Paul Verhoeven. Roteiro de Ed Neumeier, baseado em livro homônimo de Robert A. Heinlein. Produção de Alan Marshall, Jon Davison, Frances Doel, Stacy Lumbrezer, Ed Neumeier e Phil Tippet. Música de Basil Poledouris. Fotografia de Jost Vacano. Edição de Mark Goldblatt e Caroline Ross. Desenho de Produção de Allan Cameron. Elenco: Casper Van Dien (Johnny Rico), Dina Meyer (Dizzy Flores), Denise Richards (Carmen Ibanez), Jake Busey (Ace Levy), Neil Patrick Harris (Carl Jenkins), Patrick Muldoon (Zander Barcalow), Michael Ironside (Tenente Jean Rasczak), Clancy Brown (Sargento Zim), Seth Gillian (Sugar Watkins), Rue McClanahan (Professora de Biologia), Marshall Bell (General Owen), Anthony Ruivivar (Shujumi), Dale Dye (General), Eric Bruskotter (Breckinridge), Matt Levin (Kitten Smith), Blake Lindsley (Katrina McIntire), Brenda Strong (Capitã Deladier), Dean Norris (Major), Christopher Curry (Bill Rico), Lenore Kasdorf (Sra. Rico), Tami-Adrian George, Steven Ford, Ungela Brockman. 

The Underwater City - 1962

Publicado originalmente no blog Juvenatrix Data: 07/12/05
 
“O mar, mais que qualquer outro reino da natureza, tem estimulado a imaginação da humanidade desde os primórdios da história. O conhecimento do oceano é mais que uma questão de mera curiosidade. Nossa própria sobrevivência pode depender disso. Estamos apenas no limiar da exploração do mundo no espaço interno. O Homem, agora na sua tentativa de adquirir maiores conhecimentos, está retornando ao lar ancestral de todas as coisas vivas que é o mar. ‘Manta Ray’, um submarino hidrojato especialmente fabricado, com capacidade para 12 pessoas, está transportando um grupo de oceanógrafos para um local previamente selecionado onde eles marcarão o lugar da primeira colônia humana permanente a ser estabelecida no leito do oceano. Medirão e verificarão também as correntes oceânicas, pois os oceanógrafos acreditam que esses rios do fundo do mar tem o segredo das condições atmosféricas. Se pudermos aprender a controlar essas correntes, poderemos um dia ser capazes de controlar o clima do mundo. A conversão de água salgada em água potável é outro projeto vital para uma população mundial sempre crescente, assim como reunir informações para localizar a fonte e o trajeto das marés”.

Essa introdução narrada dá início a um delicioso e típico filme de ficção científica no melhor estilo “Sessão da Tarde”. Com um história investindo num tema pouco explorado pelo gênero, cujos produtores ao longo principalmente das décadas de 1950 e 60 preferiam abordar o desconhecido espaço externo sideral, apresentando alienígenas, naves e mundos exóticos, “Cidade Submarina” (The Underwater City, 1962), o chamado “mundo do futuro” como o próprio filme se auto denomina, focaliza seu argumento na também fascinante exploração submarina dos mares, que sempre despertou grande interesse e curiosidade na imaginação da humanidade. Pois nosso planeta azul, a Terra, é dominada por aproximadamente 75% de água, tornando ainda boa parte do nosso mundo interno desconhecido, e consequentemente uma fonte rica para os roteiristas do cinema desenvolverem suas histórias.

Uma poderosa companhia de construção civil é contratada para a realização de um projeto científico inédito e de proporções colossais: a instalação de uma cidade no fundo do mar. Uma equipe de engenheiros e mergulhadores sob a liderança de Bob Gage (William Lundigan) e outra equipe de geólogos, oceanógrafos e cientistas coordenados pelo veterano Dr. Junius Halstead (Carl Benton Reid) estão empenhados na construção da primeira cidade submarina do mundo, batizada de “Anfíbia”. A cidade é formada por unidades celulares construídas na superfície, em hangares especiais, e depois transportadas para um local previamente estudado e afundadas até o leito do oceano, onde são fixadas através de enormes colunas hidráulicas.
Um pequeno e versátil submarino chamado “Manta Ray” é o responsável pelo transporte de passageiros até “Anfíbia” e um grupo inicial de humanos colonizadores passa a viver nas instalações submarinas estudando e realizando pesquisas marinhas. Fazem parte desse grupo principal o engenheiro chefe Bob Gage, o cientista Dr. Halstead, sua sobrinha a bela médica Dra. Monica Powers (Julie Adams, de “O Monstro da Lagoa Negra”, 1954), o mergulhador profissional Chuck Malowe (Chet Douglas), a nutricionista Phillys Gatewood (Karen Norris) e o jovem casal formado pelo militar Tenente Wally Steele (Edward Mallory), especialista em comunicação aquática, e sua esposa Dotty (Kathie Browne).

As cenas cômicas do filme ficam por conta do jovem mergulhador Chuck, conhecido por sua habilidade na preparação de diferentes “drinks” e que ao explorar um navio afundado próximo à cidade submarina, encontra uma caixa repleta de garrafas cheias de “whisky”, propiciando bons momentos de embriaguez “aquática”.

Com o passar dos meses a cidade acaba tornando-se auto-suficiente na geração de seu próprio alimento, com pequenos submarinos pilotados por duas pessoas controlando a criação de peixes num interessante paralelo aos tradicionais vaqueiros montados em seus cavalos e conduzindo o gado. Equipamentos geradores de energia elétrica, recarregadores de atmosfera e filtros conversores de água salgada em potável completam a independência de “Anfíbia” em relação à superfície.

Porém, na fase preliminar de estudos da região onde seria instalada a cidade, um importante geólogo morreu num acidente envolvendo uma gigantesca enguia antes de completar seu trabalho e descobriu-se mais tarde que o local escolhido estava sendo consumido por uma enorme erosão do solo proveniente de uma poderosa corrente marítima. No momento em que “Anfíbia” recebia a importante visita de oficiais da Marinha, descobriu-se a falha geológica do local com o surgimento de grandes rachaduras e a cidade foi evacuada de forma emergencial, afundando no gigantesco fosso que se formou devido à erosão. Entretanto, o desastre não significou o fim do projeto e a equipe passa a se preparar para a construção de uma nova cidade num local mais seguro.

Um destaque é a cena envolvendo uma luta mortal entre dois gigantescos seres das profundezas do oceano: um polvo morador do barco afundado e uma enguia habitante de uma caverna localizada num abismo próximo à cidade.

Os efeitos especiais são super divertidos, com as maquetes da cidade aquática, um aglomerado de domos e cúpulas de diferentes tamanhos e disposições, além do pequeno submarino de transporte de pessoas. Sem contar todos os instrumentos eletrônicos “avançados” da época, com painéis repletos de botões, alavancas, televisores e todo tipo de equipamento característico dos filmes de ficção científica dos anos 1950 e 60, um período especial do cinema fantástico.
        
Um dos principais argumentos levantados pelo próprio filme justificando que a humanidade invista na exploração submarina e construção de cidades no fundo dos oceanos, ao invés de unir seus esforços na exploração do espaço sideral e construção de plataformas espaciais ou colônias humanas em outros planetas, é a possibilidade real de uma guerra nuclear, principalmente na época da produção do filme, início dos anos 1960, onde a guerra fria entre Estados Unidos e a extinta União Soviética estava alcançando seu clímax. Com uma guerra mundial atômica, a devastação do planeta pela radiação obrigaria a humanidade a se refugiar como única salvação, em cidades submarinas independentes da superfície e auto-suficientes na produção de alimentos não contaminados e minerais, sem contar que essas colônias humanas de nosso mundo interior poderiam servir como estratégia de defesa militar (dos imperialistas americanos, é claro, através de postos de abastecimento de combustível para submarinos atômicos), e um núcleo de aprendizagem dos infindáveis conhecimentos dos mares que poderiam ser aproveitados para o desenvolvimento do próprio Homem.
 
É interessante notar que passados mais de 50 longos anos da produção de “Cidade Submarina”, seus eventos imaginados e previstos não aconteceram, nem ao menos uma pequena parte disso, e os oceanos continuam sendo em boa parte um grande mistério. Na verdade, nem a exploração do mundo exterior, o espaço sideral, também não teve grande desenvolvimento, pois apenas houve na década de 1960 uma corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética por questões políticas. Em 1960, um soviético foi o primeiro homem no espaço e em 1969 os americanos chegaram primeiro à Lua. Após isso, a exploração espacial diminuiu significativamente sua velocidade de conquista e a maioria dos eventos previstos em dezenas de filmes de ficção científica estão ainda longe de serem realidade para a humanidade. Por outro lado, nosso planeta também precisa resolver ainda uma infinidade de problemas internos, como a fome que dizima populações, a exploração inconsequente dos recursos naturais, e a ocorrência de guerras estúpidas que emperram nosso desenvolvimento, enfatizam nosso grau de irracionalidade e atrasam nossos planos de conhecimento do espaço externo.

Curiosamente, poucos foram os filmes de ficção científica que abordaram a temática da exploração submarina. Uma outra produção interessante do mesmo período foi “Cidade Sob o Mar” (City Beneath the Sea, 1970), dirigida pelo especialista Irwin Allen, criador das nostálgicas séries de televisão “Viagem ao Fundo do Mar”, “Perdidos no Espaço”, “Túnel do Tempo” e “Terra de Gigantes”, e que teve no elenco nomes famosos das telinhas na época como Stuart Whitman (do western “Cimarron”), Robert Wagner (“Casal 20”), Robert Colbert, James Darren e Whit Bissell (todos do elenco fixo de “Túnel do Tempo”) e Richard Basehart (o Almirante Nelson de “Viagem ao Fundo do Mar”), além de Joseph Cotten e Rosemary Forsyth.

“Cidade Submarina” é uma rápida (apenas 78 minutos) aventura de ficção científica que procura instigar a nossa imaginação prevendo um futuro onde a humanidade pudesse viver em belas e complexas cidades construídas no fundo dos oceanos, podendo ser talvez a única salvação em caso de uma guerra nuclear que devastasse a superfície por séculos de contaminação radiativa. Esperamos que a nossa civilização esteja cada vez mais longe de concretizar sua própria destruição com uma guerra fatal e que possamos desfrutar das riquezas e conhecimentos oferecidos pelos mares. Encerro o artigo reproduzindo o que o próprio filme diz em sua cena final, através da narração abaixo, em meio à imagem de uma belíssima cidade submarina e os letreiros indicando “O Futuro”. 

“
A cidade ‘Anfíbia’ é apenas o começo. No futuro veremos outras colônias submarinas, grandes cidades no fundo do mar. Na verdade, as grandes, ricas, abundantes profundezas do oceano, berço da vida, o mundo do espaço interno, talvez venha a se constituir num futuro lar, um abrigo seguro para a humanidade”.

Cidade Submarina (The Underwater City, Estados Unidos, 1962). Duração: 78 minutos. Não disponível no mercado brasileiro de vídeo VHS ou DVD. Direção de Frank McDonald. Roteiro de Owen Harris (pseudônimo de Orville H. Hampton), baseado em história de Alex Gordon e Ruth Alexander. Produção de Alex Gordon. Fotografia de Gordon Avil. Música de Ronald Stein. Direção de Arte de Don Ament. Efeitos Especiais de Howard C. Lydecker e Howard A. Anderson. Elenco: William Lundigan (Bob Gage), Julie Adams (Dra. Monica Powers), Roy Roberts (Tim Graham), Carl Benton Reid (Dr. Junius Halstead), Chet Douglas (Chuck Marlow), Paul Dubov (George Burnett), Karen Norris (Phyllis Gatewood), Kathie Browne (Dotty Steele), Edward Mallory (Tenente Wally Steele).