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The Howling IV - 1988


De uma maneira geral, a franquia “Grito de Horror” costuma ser bastante lembrada pelos fãs de filmes de terror tanto pela sua extensão (sete obras produzidas entre 1981 e 1997) quanto pela sua irregularidade. Depois do brilhante filme original dirigido pelo cultuado Joe Dante vieram várias sequências cujo nível de qualidade varia de razoável para péssimo. As partes II e III, em especial, estão entre os piores filmes que já tive o desprazer de assistir em toda minha vida. Tão ruins que sujaram o nome da série para sempre, de tal forma que, mesmo tendo sido produzidas nos anos seguintes algumas sequências de qualidade superior, ainda assim foram recebidas com frieza ou desprezo por parte do público e principalmente da crítica, resultando sempre em fracassos de arrecadação.

Este “Grito de Horror IV – Um Arrepio na Noite” (The Howling IV), lançado em 1988, se constitui em uma tentativa por parte dos produtores de reerguer a franquia depois do fiasco monumental dos dois filmes anteriores, e vejam só, a alternativa encontrada para isso foi elaborar uma obra que praticamente reinicia a série partindo da mesma premissa do filme original, estratégia bastante difundida atualmente para tentar trazer de volta velhas séries decadentes. Em outras palavras: este filme é praticamente um remake do primeiro “Grito de Horror”, cuja idéia básica foi retirada do livro “The Howling”, de autoria do norte-americano Gary Brandner. Ainda não tive oportunidade de ler o livro, até em virtude do fato dele nunca ter sido publicado no Brasil, mas o que se comenta é que “Grito de Horror IV – Um arrepio na noite” é mais fiel a obra literária em vários aspectos que foram deixados de lado no filme original por Joe Dante, principalmente no que se refere as questões ligadas a religiosidade.

Dirigido por John Hough (do perturbador “Incubus”) e roteirizado por Freddie Rowe (que posteriormente escreveria também o roteiro de “Grito de Horror V – O Renascimento”) o enredo deste quarto filme inicia nos apresentado Marie (Romy Windsor), uma famosa escritora de romances que sofre um verdadeiro surto psicótico depois de ser atormentada por sucessivas alucinações envolvendo a imagem de uma freira misteriosa. Seguindo orientações médicas, Richard (Michael T. Weiss), o marido da escritora, decide alugar uma cabana em uma floresta próxima a uma cidadezinha isolada e cujos habitantes se mostram estranhos e misteriosos. O objetivo do casal era passar alguns dias sossegados em contato com a natureza aparentemente bucólica da região, mas tudo começa a se complicar quando Marie afirma ouvir sinistros uivos vindos da mata durante praticamente todas as noites. Além disso, aparece na área uma ex-freira chamada Janice (Susanne Severeid) investigando a morte de uma companheira de congregação ocorrida no local. Logo Marie e Janice descobrem que a freira morta é a mesma das alucinações da escritora, o que as leva a crer que, de fato, algo muito estranho ocorre por aquelas bandas. Para deixar as coisas ainda mais complicadas, Richard se envolve com uma mulher esquisita que é dona de um antiquário e, em uma noite em que os dois se encontram na floresta, o canastrão é mordido por um misterioso animal, o que faz com que, a partir de então, ele vá se tornando progressivamente mais estranho e agressivo. Logicamente, por trás de todos esses mistérios e acontecimentos insólitos está uma verdadeira alcatéia de lobisomens que vive disfarçadamente na região. Até aqui, nenhuma grande novidade em relação ao enredo do filme de Joe Dante. O que muda são os elementos secundários, pois a idéia básica é exatamente a mesma.

Mas, infelizmente, apesar das similaridades do roteiro, o filme de Hough é muito inferior ao clássico que originou a franquia. O elenco deste “Grito de Horror IV – Um Arrepio na Noite” é péssimo, com atores que atuam o tempo todo de forma inexpressiva. Também não ajuda em nada o fato dos diálogos serem bobos e forçados em sua maioria, e o próprio diretor demonstra incapacidade para tornar a coisa mais natural, uma vez que insiste em dar closes nos personagens que estão falando, em um recurso que muitas vezes nos passa a impressão de estarmos assistindo a uma novela bagaceira e não a um filme de terror. Além disso, a obra é conduzida em um ritmo lento, arrastado e que provoca um marasmo que aborrece e irrita. Durante os primeiros 70 minutos, pouquíssima coisa acontece de fato e os raros ataques dos lobisomens são mostrados de maneira rápida e indireta, sem absolutamente nada que mereça ser destacado. Apenas nos 20 minutos finais é que o filme realmente engrena e aí tudo acontece de forma verdadeiramente empolgante, o que nos leva a pensar que o filme poderia ser muito melhor se o diretor Hough tivesse se preocupado em tornar a sua obra um pouco mais dinâmica, conferindo-lhe maior regularidade ao invés de concentrar todos os elementos de destaque na conclusão da história.

Quando os lobisomens finalmente entram em cena, aquilo que vemos é tão bom que quase salva o filme. A criação dos monstros ficou a cargo de uma equipe comandada pelo conceituado Steve Johnson, responsável pelos efeitos de obras como “A Volta dos Mortos-Vivos III” e “A Hora do Pesadelo IV”, além de ter concebido aquele que, na minha opinião, é o mais bem elaborado e convincente lobisomem já apresentado em uma produção do gênero: o do filme “Lua Negra”. Para quem não lembra, Johnson foi assistente de Rick Backer na produção dos efeitos especiais de “Um Lobisomem Americano em Londres”, experiência que certamente contribuiu para que ele se tornasse um especialista na elaboração do visual de criaturas licantrópicas.

Um dos elementos mais interessantes deste filme é o fato de que, assim como no original, os lobisomens têm pleno controle sobre a transformação, podendo metamorfosear-se em sua forma monstruosa ou retroceder para a condição humana conforme bem entenderem. Isso faz com que, nos momentos em que realmente aparecem pra valer, os licantropos se apresentem sob as mais variadas formas: semi-transformados, apenas com garras afiadas e presas pontiagudas sobre uma aparência predominantemente humana, em forma híbrida, onde permanecem bípedes, mas com o corpo completamente coberto por uma densa camada de pelos e predominância de traços lupinos e monstruosos, ou ainda completamente convertidos em lobos, embora de proporções avantajadas e olhos vermelhos e demoníacos.

Ainda dando destaque para os efeitos especiais, é interessante mencionar a única e longa cena explícita de transformação, que acontece de forma bastante original, onde o corpo de determinado personagem - por estar se transformando pela primeira vez - começa a se decompor de forma grotesca e dolorosa, com sua pele, músculos e ossos se liquefazendo em uma poça de sangue e gosma, para depois se reestruturar e emergir com sua anatomia já convertida em algo horrendo e monstruoso. Muitos anos depois, essa idéia foi reaproveitada de forma similar em uma cena de metamorfose do filme “Romasanta – A Casa da Besta”.

Também considero empolgante e macabra a batalha final travada dentro de uma igreja, onde são ressaltados os aspectos religiosos e satânicos que permeiam toda a investigação proposta ao longo do filme. Além disso, para uma obra que foi desenvolvida de forma convencional e até monótona durante a maior parte de sua duração, o final até que se mostra corajoso e ousado em certa medida, uma vez que não poupa personagens centrais de um destino trágico. A “surpresa final” que fecha o filme também fez com que ele ganhasse alguns pontos a mais na minha avaliação, uma vez que pressupõe uma perspectiva pessimista, que foge da obviedade.

De uma maneira geral, fica até difícil proferir um parecer conclusivo sobre o filme, justamente pelo fato dele ter dois atos bastante distintos: um longo, maçante e desanimador e outro empolgante e divertido, porém curto. Se você tiver paciência para agüentar 70 minutos de conversa fiada e desenvolvimento sonolento, é bem possível que se surpreenda com os últimos 20 minutos onde finalmente aparece aquilo se espera ver em um filme desse tipo: lobisomens. Mas se você já sabe que a moral da história é a mesma do primeiro filme (embora desenvolvida de forma muito menos interessante) e não anda com muita paciência, então talvez a solução seja apelar para o controle remoto e pular diretamente para o clímax da obra e curtir alguns bons momentos de tensão, gore e monstros desenvolvidos com ótimos efeitos de maquiagem, bem superiores ao CGI utilizado na maioria das produções atuais.

“Grito de Horror IV – Um Arrepio na Noite”, foi lançado em DVD no Brasil no ano de 2008 pela LW Editora em uma edição que traz também no mesmo disco o filme anterior da franquia, o péssimo “Grito de Horror III – A Nova Raça”, e pode ser encontrado em balaios de lojas de artigos do gênero ou mesmo na internet por preço popular.

Bats - 1999


 
Na segunda metade da década de 90, parece ter virado moda em Hollywood fazer filmes onde animais são transformados em vilões ferozes e sanguinários. São exemplos dessa onda filmes como “Anaconda”, “Do Fundo do Mar”, “Pânico no Lago” e “Morcegos” . Embora nenhuma dessas produções possa ser considerada grande coisa, certamente “Morcegos” se destaca das demais, e não pelos seus méritos, mas sim pela incrível ruindade que pontua esse filme.

Na verdade, é até difícil criticar um filme como esse, pois ao longo de toda a sua duração sucedem-se tantas bobagens e absurdos, que o expectador acaba até ficando meio desorientado (“pasmo” talvez fosse a expressão ideal).

Pra começar, o roteiro é aquele primor de originalidade: em uma pequena cidade do interior do Texas, uma série de mortes inexplicáveis passa a ser atribuída a um bando de morcegos assassinos. Então, a zoóloga Sheila Casper e seu assistente Jimmy são enviados à cidade para colaborar com as investigações do xerife Emmet Kimsey. Logo se fica sabendo que um casal de morcegos portadores de um vírus mutante fugiu de um laboratório localizado nos arredores, e rapidamente passou a disseminar o vírus entre os demais morcegos da região, tornando-os extremamente astutos e agressivos. Depois dessa descoberta, os heróis precisam correr contra o tempo e encontra uma maneira de conter os animais antes que eles se reproduzam e migrem, espalhando o vírus por todo o país.

Com certeza, a falta de originalidade da trama não seria um defeito tão grande assim, desde que o roteiro não estivesse tão abarrotado de situações previsíveis e repetitivas. Todos aqueles velhos clichês que todo mundo já está cansado de ver em filmes do gênero, estão novamente presentes aqui, com o diferencial de serem mais mal feitos do que de costume. E por falar em algo mal feito, os tais morcegos do filme são simplesmente ridículos. Na verdade, eles se parecem com uma série de coisas (raposa, cachorro, Pokemon...), menos com morcegos.

Não sei que tipo de efeitos foram usados na concepção dos animais, mas de qualquer forma, eles não funcionaram direito. Inclusive, em algumas cenas os morcegos parecem meros brinquedos de borracha, parecidos com aqueles que víamos pendurados nos cenários dos filmes da antiga Hammer.

Para se ter uma idéia, na parte em que os morcegos invadem a cidade é até difícil evitar as risadas, principalmente em algumas cenas de ataques, pois só o que vemos é as pessoas caídas no chão e um monte desses morcegos sendo atirados sobre elas. E o mais impressionante é que depois de levarem sabe-se lá quantas mordidas, alguns corpos ainda são mostrados sem uma gota de sangue!

Ora, façam-me o favor !


Ainda nessa parte da invasão na cidade, é curioso ver como o xerife e a doutora ao invés de fugirem ou se esconderem como todo mundo, preferem ficar no meio da rua, lutando contra os morcegos. E mais curioso ainda é o fato de eles ficarem cercados por centenas, ou talvez até milhares de morcegos, e escaparem completamente ilesos!!! Talvez os morcegos além de mal feitos fossem também muito idiotas, pois preferiam sofrer invadindo casas e lojas atrás de vítimas, ao invés de atacar os heróis que estavam a céu aberto.

O elenco dessa bomba também é pra lá de inusitado. Dina Meyer, que interpreta a Dr. Sheila, apesar de ser uma mulher muito bonita, é uma atriz fraca, cheia de expressões e trejeitos cem por cento artificiais. Bob Gunton (do seriado “Oz”) está incrivelmente chato no papel do ajudante Jimmy, pois passa o tempo inteiro fazendo piadinhas tão sem graça que só surtiriam efeito se o expectador estivesse bêbado e muito bem-humorado. E olhe lá. Completando a trinca de personagens principais, temos Lou Diamond Phillips, pagando o maior mico no papel do xerife Emmet. É surpreendente ver um ator que alcançou relativo sucesso com filmes como “La Bamba” e “Jovem Demais Para Morrer” se sujeitando a estrelar um fiasco como esse... Lamentável .

E como se não bastasse tudo o que já foi mencionado, ainda é preciso destacar o final, que eleva ao quadrado toda a imbecilidade vista ao longo do filme. Além de extremamente previsível, o desfecho da história ainda escancara uma série de furos absurdos, que contribui ainda mais para afundar essa patética produção. Não vou me aprofundar nesse quesito, para não estragar a surpresa (!?!?) de algum possível “aventureiro” que ainda tenha a coragem de assistir a esse filme, mas posso assegurar que é uma das coisas mais bobas que já vi em toda a minha vida. Realmente, não dá pra saber o que se passou pelas cabeças do pessoal da Columbia ao conceberem uma “coisa” tão mal feita e sem graça como essa.

Pra ser sincero, quando vemos os heróis andando por dentro de um verdadeiro “rio” de fezes de morcego, dá uma vontade tremenda de pegar o diretor Louis Morneau e enfiá-lo de cabeça lá dentro, como vingança por termos assistido do início ao fim um lixo como esse.

E o mais fantástico é que existem trouxas como eu que além de assistirem a esse filme ainda dedicam seu precioso tempo para escrever uma resenha sobre ele!

Howling III: The Marsupials - 1987


 
Às vezes eu fico me perguntando o que leva as produtoras cinematográficas a cometerem verdadeiros atentados contra o bom-senso e prostituírem o nome de suas obras, a exemplo do que foi feito com a franquia “The Howling” (Grito de Horror), entre outras tantas. Seria apenas o dinheiro? Difícil responder, mas a verdade é que depois do excelente filme original, dirigido por Joe Dante, unanimemente considerado pelos fãs como um dos melhores filmes de lobisomem já realizados, a série se afundou em uma sucessão de produções que variam de meia-boca para péssimos. Acredito que o fundo do poço seja esse “Howling III: The Marsupials”, dirigido e roteirizado pelo desorientado Philipe Mora, que já havia “cometido” o igualmente ridículo “The Howling II”.
 
Pra começar, esse filme se constituiu numa tentativa de fazer a série dar uma guinada de gênero, investindo mais no humor do que no terror, tanto que no IMDb sua classificação está como Comédia/Horror. Mas a tentativa foi em vão, diga-se de passagem, pois o filme é tão ruim que não provoca sequer uma única risada. Pelo menos em mim não provocou. Então, como resultado, o filme não assusta e não diverte, apenas irrita.
 
O enredo até começa dando a impressão que poderia trazer algo de bom, onde vemos um cientista norte-americano (Barry Otto) analisando uma filmagem amadora vinda da Austrália, onde aparece um suposto lobisomem. Acreditando se tratar de um indício real, ele parte para a Oceania em busca de uma tribo aborígine cujos membros se transformam em lobisomens marsupiais(!). Paralelamente, vemos a tal tribo, de onde uma jovem (a belíssima Imogen Annesley) foge por ter sido quase estuprada pelo seu padrasto, o líder da tribo. Ao chegar na cidade grande, a moça encontra um jovem assistente de direção cinematográfica, que a leva para participar de um filme de terror classe Z no qual ele está trabalhando. Os dois se apaixonam e ela acaba engravidando. Simultaneamente, passam a ser perseguidos por um grupo de lobisomens enviados pela tribo para recapturar a moça, e também pelo governo australiano, que pretende estudar a estranha raça a qual a garota pertence. No meio dessa confusão toda, aparece uma bailarina russa, que é integrante de outro clã de lobisomens e foi enviada para a Austrália para acasalar com o líder dos aborígines-marsupiais com a intenção de criar uma nova raça de lobisomens, ainda mais forte. Lá pelas tantas, o tal cientista norte-americano se apaixona pela lobisomem russa e decide ajudá-la a fugir do exército e dos agentes do governo australiano.
 
Talvez descrevendo dessa forma não dê para se ter uma noção exata da ruindade do filme. Creio ser importante mencionar que em meio à maluquice geral do roteiro aparecem freiras-lobisomem, bebês-lobisomem e até um lobisomem gigante. E ainda tem cenas que extrapolam os limites do ridículo, como o momento em que a bailarina se transforma em lobisomem durante um número musical, uma festa à fantasia onde os lobisomens entram sem serem reconhecidos, entre outras tantas. Sem contar que o filme é muito mal produzido, com efeitos toscos (os lobisomens são, em sua maioria, bonecos muito malfeitos e a caracterização dos aborígines lembra demais os Flinstones), elenco péssimo, e ritmo tão irregular que quando assisti pela primeira vez acabei desistindo na metade devido ao sono que me acometeu, coisa raríssima de acontecer.
 
Em resumo, trata-se do filme que afundou de vez com a série. Mesmo quando, posteriormente, foram produzidos “The Howling IV” e “The Howling V”, cujo nível geral de qualidade apresenta significativa melhora, o estrago causado na reputação da franquia pelas ridículas partes II e III já tinha chegado a um ponto irreversível. Méritos do senhor Philipe Mora, com certeza um dos piores diretores-roteiristas de que já tive noticia. Trata-se de um filme que não podemos considerar obrigatório nem mesmo para os fãs das criaturas licantrópicas, pois além de não acrescentar nada ao gênero ainda irrita e aborrece. A meu ver, essa produção só não é 100% esquecível e descartável devido a estonteante beleza da atriz Imogen Annesley, que acaba tendo, aos nossos olhos, o efeito de um oásis em meio a um deserto de mediocridade.
 
“Howling III: The Marsupials” foi lançado em DVD no Brasil no ano de 2008 pela LW Editora em uma edição que traz também no mesmo disco o filme seguinte da franquia, “ Howling IV – The Original Nightmare”, e pode ser encontrado em balaios de lojas de artigos do gênero ou mesmo na internet por preço popular.

A Hora do Espanto - 1985


Atualmente, parece cada vez maior o número de filmes que surgem propondo novas idéias, inovações, que infelizmente acabam se perdendo em meio a situações repetitivas e roteiros repletos de clichês, fazendo com que produções que tinham tudo para se tornar sucessos culminem por naufragar e cair no esquecimento. Porém, existem casos (muito raros, diga-se de passagem) em que acontece exatamente o contrário: são justamente os clichês e os lances de apelo folclórico que tornam o filme divertido e interessante. Esse é o caso de “A Hora do Espanto”, filme de 1985, dirigido pelo eficiente Tom Holland, que não só se tornou um dos maiores clássicos dos anos 80, como também estimulou um verdadeiro revival de filmes sobre vampiros, sendo que no mesmo período foram produzidas obras como “Vamp – O Filme” (1986), “Os Garotos Perdidos” (1987), “Quando Chega a Escuridão” (1987), “A Hora do Espanto 2” (1989), entre outros.

O roteiro deste filme apresenta uma história que não possui nada de muito extraordinário: um típico adolescente americano de classe média, chamado Charlie (William Regsdale), descobre inesperadamente que seu novo vizinho é um vampiro (Chris Sarandon, de “Brinquedo Assassino”), e está atacando as moças da cidade. Desesperado e sem saber o que fazer, Charlie decide pedir ajuda para um ator (Roddy McDowall, da série “O Planeta dos Macacos”), que interpreta o caçador de vampiros Peter Vincent em um programa de televisão. Logicamente, o ator não acredita na inusitada história do garoto, mas depois de muita insistência, acaba concordando em ajudar a investigar o caso. Depois de algumas confusões, a situação de Charlie fica extremamente complicada quando seus amigos passam a ser atacados pelo vampiro, e sua namorada acaba sendo raptada.

De forma bastante despretensiosa, a trama vai se desenvolvendo e evidenciando alguns elementos clássicos na mitologia dos vampiros, que por alguma razão foram sendo deixados de lado com o passar do tempo. Por exemplo: neste filme o vampiro dorme em um caixão (desses comuns), tem medo de água benta e crucifixos, se transforma em morcego, e precisa ser convidado para entrar pela primeira vez na casa de alguém. Alguns podem achar bobagem, mas todos esses itens me parecem fundamentais em uma boa história de vampiros, pois já estão presentes em nosso imaginário, e sempre vemos (mesmo que inconscientemente) essas características como sendo cruciais para a existência dos vampiros. Eu, particularmente, prefiro essa linha mais tradicional do que ver vampiros que andam durante o dia, dormem enterrados ou em caixões hig-tec, beijam crucifixos e voam a lá Super-Homem. Sem falar nas fortes tendências homossexuais das obras de Anne Rice, por exemplo.

Mas existem vários outros motivos que garantem o sucesso do filme, como a segura atuação do elenco (destaque para o divertido Roddy MacDowall), o nível dos efeitos especiais (muito bons para a época, e ainda eficientes se comparados com os das produções atuais do gênero) e a ótima direção de Tom Holland, que consegue prender a atenção do expectador do início ao fim, sem deixar o ritmo do filme cair. Em 1988, Holland também dirigiu “Brinquedo Assassino”, outro grande sucesso que gerou a franquia do famoso boneco “Chucky”. Pena que esse diretor ande meio sumido ultimamente.

Como destaque, fica a interessante iniciativa de, em determinado momento do filme, transformar alguns heróis em vilões, pois apesar de não ser uma idéia nova, surtiu um resultado eficiente. A passagem em que o vampiro persegue os garotos na danceteria ficou muito legal, assim como o confronto no porão.

Além dessas colocações, também é importante observar que o filme segue a típica linha das produções oitentistas, com notáveis toques de humor, e um direcionamento mais voltado para a diversão do que propriamente para os sustos.

 
Concluindo, posso afirmar que “A Hora do Espanto” é um dos primeiros nomes na minha lista de favoritos, pois consegue entreter e divertir de tal forma que nem se vê passar as quase duas horas do filme, e quando acaba você fica com aquela sensação de “quero mais...”. Um pouco disso se deve ao sentimento de nostalgia que alimento em relação aos saudosos anos 80, mas a verdade é que nessa década foram concebidas algumas obras inesquecíveis, e essa certamente é uma delas.

A Saga de Larry Talbot

 
Entre os monstros clássicos do cinema de horror, imortalizados nas telas através das produções em preto e branco do estúdio Universal entre as décadas de 1930 e 1940, o Lobisomem, personificado pelo cultuado ator Lon Chaney Jr, foi um dos que não atingiu o mesmo patamar de popularidade do Conde Drácula, e nem gerou uma franquia tão longa e rentável como a do Monstro de Frankenstein. Contudo, esses detalhes não reduzem a inquestionável importância do personagem dentro da longa e prolífera história do cinema de horror, da mesma forma que não impediu os seus filmes de serem referenciados e cultuados por uma legião de fãs que continuam admirando e preservando o seu legado, mesmo passados mais de sessenta anos do lançamento do filme que apresentou o personagem ao mundo pela primeira vez.
 
A obra em questão foi o fundamental “O Lobisomem” de 1941, que contou com direção do também produtor George Waggner e roteiro do alemão Curt Siodmak. Para os padrões adotados para os filmes da Universal naquele período, pode-se dizer que “O Lobisomem” foi uma verdadeira “superprodução”, levada a cabo com planejamento e esmero, concentrando todos os esforços do estúdio no intuito de elaborar uma obra que deveria obrigatoriamente se tornar um grande sucesso nas bilheterias. A preocupação dos executivos da Universal se justificava pelo fato de que a investida anterior do estúdio em um filme de lobisomem com o subestimado “O Lobisomem de Londres”, de 1935, havia sido um redundante fracasso de público e crítica, embora na verdade, o filme estivesse muito longe de ser ruim, tanto que hoje em dia se constitui em uma obra reconhecida e apreciada pelos verdadeiros fãs do gênero.
 
Para evitar que o fracasso se repetisse com o novo filme, a Universal se cercou de uma série de cuidados, como deixar o roteiro a cargo do badalado Curt Siodmak, e principalmente, investir no recrutamento de um elenco de peso, uma vez que o fraco desempenho dos atores principais de “O Lobisomem de Londres” vinha sendo apontado como a principal causa da má aceitação do filme por parte do público. Dessa forma, foram contratados Claude Rains, astro de filmes como “O Homem Invisível”, “O Vidente” e “O Fantasma da Ópera”, e que ao longo de sua carreira recebeu nada menos do que seis indicações ao Oscar, Bela Lugosi, o eterno conde vampiro do clássico “Drácula”, a russa Maria Ouspenskaya, que também trazia no currículo duas indicações ao Oscar, o inglês Patric Knowles, que na época era uma jovem promessa a galã, e no papel principal Lon Chaney Jr, filho de Lon Chaney, astro do cinema mudo, conhecido com “O Homem das Mil Faces” e que atuou em filmes como “O Corcunda de Notre Dame” e na primeira adaptação de “O Fantasma da Ópera”. Além disso, o grande maquiador Jack Pierce, responsável pela caracterização de todos os outros monstros clássicos da Universal, havia sido incumbido de elaborar a maquiagem do lobisomem, acrescentando-se assim o nome de mais um profissional conceituado para a produção do filme.
 
Apesar de alguns contratempos, como a necessidade de se fazerem modificações no roteiro em meio às filmagens, e algumas desavenças entre atores e integrantes da equipe de produção, o filme foi extremamente bem-sucedido, atingindo plenamente as expectativas da Universal e se constituindo numa das maiores bilheterias obtidas pelo estúdio naquele período.
 
Entre os extras da versão nacional do DVD do filme, existe uma interessantíssima trilha de áudio com comentários do historiador de cinema Tom Weaver, que traz uma série de revelações e informações diversas sobre os bastidores da produção e os profissionais que nela trabalharam, e também sobre os filmes seguintes onde o personagem do Lobisomem apareceu. Entre as pérolas mencionadas por Weaver, está o relato dando conta de que Lon Chaney Jr, ao mesmo tempo em que se revelava um grande ator, se mostrava também um cara beberrão e totalmente temperamental, que vivia arrumando encrenca com os outros atores e principalmente com o maquiador Jack Pierce. Weaver afirma inclusive que Chaney e a atriz Evelyn Ankers, que interpretou a mocinha Gwen Conliffe, não se suportavam, chegando a ponto de brigarem já no primeiro dia de filmagens, por causa de um camarim que Chaney gostaria de usar e que havia sido cedido para a atriz.
 
Curiosidades à parte, o enredo do filme já é de conhecimento de todos, mas caso você ainda não tenha assistido e não quiser tomar conhecimento de detalhes reveladores sobre a trama, pule para o parágrafo seguinte, pois este contém Spoilers: Depois de muitos anos morando nos EUA, o jovem Larry Talbot (Lon Chaney Jr) retorna para o País de Gales com o objetivo de assumir o controle dos negócios da família. Certa noite, Talbot é atacado por um lobisomem (Bela Lugosi) e acaba matando-o com golpes de sua bengala ornamentada com prata. Mas por ter sido mordido, Talbot também passará a se transformar em lobisomem nas noites de lua cheia, espalhando o terror e a morte entre a população de sua aldeia natal, até ser morto pelo seu pai (Claude Rains), ironicamente, com golpes desferidos com a sua própria bengala de prata. Motivados pelo grande sucesso, os executivos da Universal deram sinal verde para a produção de novos filmes abordando o personagem do Lobisomem, da mesma forma com que foi feito com Drácula e Frankenstein. Curiosamente, o amaldiçoado personagem de Larry Talbot nunca mais apareceu em um filme solo, mas sim participando de crossovers, filmes que uniam sob um mesmo enredo dois ou mais personagens clássicos do estúdio, algo visto recentemente em “Freddy Vs Jason” e “Alien Vs Predador”, e que foram uma grande inovação para a época.
 
Tentando encontrar uma forma de se livrar de sua maldição, ou simplesmente empenhado em sabotar os planos maquiavélicos do Conde Drácula, Larry Talbot apareceu em mais quatro filmes além do original, sendo eles “Frankenstein encontra o Lobisomem”, de 1943, “A Casa de Frankenstein”, de 1944, “A Casa de Drácula”, de 1945 e “Abbott e Costello encontram Frankenstein” de 1948. E são justamente esses filmes o foco da série de artigos que se sucederá, abordando a árdua e fascinante saga desse que é o mais famoso lobisomem da história do cinema.

Lon Chaney Jr.: o Monstro que criou o Homem

 
As décadas de 1930 e 1940 tiveram uma importância seminal para o despertar da bela e sombria história do cinema de horror, o que não é novidade nenhuma para os fãs do gênero. Foi nesse período, através do Estúdio Universal Pictures, que foram concebidos clássicos à prova do tempo como “Frankenstein”, “Drácula”, “A Noiva de Frankenstein”, “O Lobisomem”, “O Homem Invisível” e “Frankenstein encontra o Lobisomem”, para citar apenas alguns. Foi também durante essas décadas que diretores oriundos do teatro, e até então pouco conhecidos, foram alçados à fama como Tod Browning, Erle C. Kenton e James Whale. Da mesma forma, esses foram os anos de ouro para uma série de atores que atingiram o estrelato interpretando personagens inesquecíveis, e com o passar do tempo se consolidaram como verdadeiras lendas da sétima arte, como os cultuados Bela Lugosi, Boris Karloff, e aquele que é o foco deste artigo - Lon Chaney Jr – cuja trajetória será brevemente relembrada.
 
Nascido em 10 de fevereiro de 1906, em Oklahoma City (EUA), Creighton Tull Chaney era filho de ninguém menos que Lon Chaney, grande astro do cinema mudo, conhecido como “O Homem das Mil Faces” e imortalizado através de filmes como “O Corcunda de Notre Dame”, “O Fantasma da Ópera” e “London After Midnight”. Sua mãe era Francis Cleveland Creighton – ou Cleva, como era mais conhecida - uma cantora e dançarina que Lon conheceu durante uma temporada de shows em Oklahoma City, e com quem viria a se casar em seguida. Porém, de acordo com as fontes consultadas, o relacionamento entre Lon e Cleva nunca foi dos melhores, e piorou drasticamente depois que o casal se mudou para a Califórnia, onde Lon buscava a consolidação da sua carreira de ator, e Cleva de cantora. A gota d’água para a completa deterioração do casamento dos dois aconteceu em 1913, quando Cleva ingeriu uma grande quantidade de veneno, tentando suicídio. O escândalo se tornou público e repercutiu negativamente para a carreira dos dois, mais ainda para Cleva, que em função da ingestão do veneno, teve lesões irreversíveis nas cordas vocais, o que pôs fim na sua emergente carreira de cantora. Desiludido com a situação, Lon Chaney pediu o divórcio, que se consolidaria no ano seguinte. Com isso, a Justiça Norte-americana determinou que o pequeno Creighton, então com oito anos, deveria ficar sob os cuidados de uma instituição destinada a abrigar crianças órfãs ou filhos de pais separados, e o menino permaneceu lá até o final de 1915, quando Lon se casou pela segunda vez, agora com Hazel Hastings, e então Creighton pode voltar a morar com o pai.
 
Desde cedo Creighton se sentiu atraído pela profissão do pai, e o fascínio pela arte de interpretar o levou a desempenhar papéis em peças de teatro infanto-juvenis e até pontas não-creditas em filmes mudos. Contudo, apesar da insistência do rapaz, o velho Lon se recusava a usar sua influência para abrir portas ao filho no meio artístico, pois tinha a convicção de Creighton deveria ter um emprego convencional, cuja estabilidade não lhe trouxesse as dificuldades e provações as quais os aspirantes a atores da época eram submetidos. Mesmo contrariado, Creighton seguiu a vontade do pai, e ao longo dos anos trabalhou como modelo, jornaleiro, açougueiro, vendedor de roupas e até vendedor de sorvetes.
 
Em 1926, Creighton se casou com Doroty Hinckley, com quem teve dois filhos, Lon Ralph Chaney, nascido em 1928, e Ronald Creighton Chaney, nascido em 1930. E foi justamente em 1930 que o grande Lon Chaney veio a falecer, vitima de câncer. Na época, Creighton tinha um negócio de consertos de encanamentos, mas com a morte do pai, sentiu-se livre e novamente tentado a investir na carreira de ator.
 
Entre 1931 e 1935, Creighton Chaney participou de quase duas dezenas de filmes, quase sempre fazendo pontas ou interpretando papéis secundários. Em todo estúdio onde ele se apresentava em busca de trabalho, havia alguém lhe sugerindo que mudasse o nome para Lon Chaney Jr, em uma evidente iniciativa de forçar uma relação com a brilhante imagem de seu pai, mas isso era algo que ele vinha se recusando veementemente. Porém, cansado dos papéis insignificantes e das pressões da indústria cinematográfica, Creighton acaba cedendo à vontade dos estúdios, e a partir de 1936 os créditos dos filmes dos quais participava não traziam mais o nome de Creighton Chaney, mas sim Lon Chaney Jr, alcunha com a qual finalmente atingiria o estrelato.
 
Na mesma época em que a mudança de nome começou a lhe abrir mais portas no meio cinematográfico, o ator - agora conhecido como Chaney Jr – passou a ter um caso com uma bela modelo chamada Patrícia Beck, o que acabou pondo fim no seu casamento de dez anos com Doroty Hinckley. Chaney Jr e Patrícia se casaram em 1937, e permaneceram juntos até a sua morte.
 
O primeiro grande passo de Chaney Jr rumo a consagração ocorreu em 1939, ocasião em que interpretou o deficiente mental Lennie no drama “Ratos e Homens” produzido pelo Estúdio Hal Roach. O filme foi um grande sucesso de público e crítica, sendo que a atuação de Chaney Jr chamou a atenção de todos, fazendo com que surgissem as primeiras inevitáveis comparações com o talento do pai. Em 1941, Chaney Jr foi contratado pela Universal e estrelou “Man Made Monster”, um filme de cientista maluco dirigido por George Waggner. O próprio George Waggner produziria e dirigiria no mesmo ano “O Lobisomem”, onde Chaney Jr interpretaria pela primeira vez o papel de Larry Talbot, O Lobisomem, personagem com o qual o ator atingiria o ponto máximo de popularidade e com o qual viria a conquistar uma legião de fãs que passariam a reverenciá-lo como um dos grandes intérpretes do cinema de horror, ao lado dos já mencionados Bela Lugosi e Boris Karloff.
 
No ano seguinte, Chaney Jr interpretaria o Monstro de Frankenstein, no quarto filme da famosa franquia protagonizada pelo personagem criado por Mary Shelley, intitulado “O Fantasma de Frankenstein”. Esse filme marca a primeira parceria de Chaney Jr com o diretor Erle C. Kenton, com quem ele voltaria a trabalhar em outras obras clássicas como “A Casa de Frankenstein” e “A Casa de Drácula”. Ainda em 1942, o ator interpretaria Kharis, A Múmia, no filme “The Mummy’s Tomb”, primeira parte de uma trilogia, seguida por “The Mummy’s Ghost” e “The Mummy’s Curse”, ambos de 1944
 
Em 1943, no auge do sucesso, Chaney Jr faria o papel de mais um ícone do horror, nesse caso, o Conde Drácula, no filme “O Filho de Drácula”. Foi também nesse mesmo ano que ele voltou a interpretar Larry Talbot, o personagem que o consagrou, no fantástico “Frankenstein encontra o Lobisomem”. Na seqüência vieram os outros filmes onde ele repetiria esse papel, sendo respectivamente “A Casa de Frankenstein” (1944), “A Casa de Drácula” (1945) e a comédia “Abbott e Costello encontram Frankenstein” (1948), todos entremeados por outros vários trabalhos menos significativos. É interessante observar que, embora tenha interpretado os três monstros sagrados das franquias da Universal – Drácula, Monstro de Frankenstein e Lobisomem – além de outros menos expressivos, como a Múmia, foi quase que exclusivamente o personagem do Lobisomem o responsável pela “imortalidade” da obra do ator, pois dez em cada dez fãs logo lembram do alter-ego do atormentado Larry Talbot sempre que o nome de Chaney Jr é mencionado. Tanto que o próprio ator sempre fez questão de deixar clara sua opinião, dizendo que o Lobisomem era o melhor personagem que já havia interpretado.
 
Aqui cabe salientar que, se por um lado a década de 1940 marcou o ponto alto da carreira de Lon Chaney Jr, onde ele interpretou seus papeis mais importantes e obteve maior retorno em termos de reconhecimento e popularidade, por outro, representou também a consolidação da sua fama de temperamental e encrenqueiro, ao mesmo tempo em que os sinais de seu alcoolismo passaram a ficar mais evidentes. O historiador de cinema Tom Weaver - que realizou um longo estudo sobre a vida e obra de Chaney Jr – diz que durante as filmagens de “O Lobisomem” o ator em mais de uma ocasião encheu a cara e destruiu o camarim a ele destinado. Também menciona o caso em que, durante um jantar oferecido pela Universal aos participantes desse mesmo filme, Chaney Jr saiu na porrada com o marido da atriz Evelyn Ankers, por quem ele nutria uma declarada antipatia.
 
Mas as brigas mais emblemáticas foram com o maquiador Jack Pierce. Em praticamente todos os documentários que assisti sobre Chaney Jr é mencionado o fato de que ele e Pierce viviam trocando desaforos, se ameaçando, e por diversas vezes foi necessária a intervenção de outras pessoas para impedir que eles partissem para a agressão física. Pelo que consta, Pierce, além de um profissional brilhante, era também um homem excêntrico, autoritário e debochado, que costumava xingar e zombar dos atores que se submetiam as suas maquiagens. Quando passou a trabalhar com um cara com fama de esquentado e fanfarrão como Chaney Jr, era fácil prever que seria só uma questão de tempo até as brigas começarem. E isso aconteceu com tal intensidade que, ainda segundo Tom Weaver, depois de “A Casa de Frankenstein”, Pierce passou a se recusar a trabalhar com Chaney Jr, que, por sua vez, adotou a mesma postura. Por isso consta que, embora a Universal não confirme, a partir de “A Casa de Drácula” já não era mais Pierce que maquiava o ator, mas sim os seus assistentes.
 
Outro caso bastante lembrado foi quando Chaney Jr tentou se suicidar em meados de 1948. Tempos depois, quando questionada sobre o assunto, a esposa do ator disse que ele estava muito desgastado física e emocionalmente pelas estafantes sessões de maquiagem e filmagem de “Abbott e Costello encontram Frankenstein”. Porém, sabe-se que suas crises depressivas estavam diretamente relacionadas aos seus constantes abusos no consumo de bebidas alcoólicas.
 
De qualquer forma, a partir da década de 1950, quando seu contrato com a Universal acabou, Chaney Jr continuou trabalhando para os mais diversos estúdios, atuando em comédias, aventuras, westerns, e, logicamente, terror e suspense, embora sem nunca obter o mesmo êxito dos anos dourados da década de 1940. No final das contas, em cerca de 40 anos de profissão, Chaney Jr atuou em mais de 150 filmes, somando-se ainda aproximadamente 60 aparições em séries e programas de televisão. Seu último filme foi “Drácula vs Frankenstein”, de 1971, onde interpretou Groton, o maluco e deformado assistente do Dr Frankenstein.
 
Nos últimos anos de sua vida, Chaney Jr já estava bastante debilitado em função de um câncer de garganta e também da beribéri, doença agravada pelo seu alcoolismo. Veio a falecer com um ataque cardíaco em 12 de julho de 1973, na cidade de San Clemente, na Califórnia. Como último pedido, solicitou aos seus familiares que doassem seu corpo para a Universidade de San Clemente, com a finalidade de ser útil para as pesquisas que poderiam vir a ajudar outras pessoas portadoras das doenças que o vitimaram. Um último gesto nobre de um ídolo que será para sempre lembrado em imagens em preto-e-branco de obras-primas que vêm perpetuando seu legado através das gerações.

FILMOGRAFIA SELECIONADA

Drácula vs Frankenstein (1971)
La Casa del Terror (1960)
The Cyclops (1957)
The Indestructible Man (1957)
Abbott e Costello encontram Frankenstein (1948)
A Casa de Drácula (1945)
A Casa de Frankenstein (1944)
The Mummy’s Curse (1944)
The Mummy’s Ghost (1944)
Calling Dr Death (1943)
O Filho de Drácula (1943)
Frankenstein encontra o Lobisomem (1943)
The Mummy’s Tomb (1942)
O Fantasma de Frankenstein (1942)
O Lobisomem (1941)
Man Made Monster (1941)
Ratos e Homens (1939)

House of Frankenstein - 1944

 
A boa receptividade por parte do público e da crítica ao filme “Frankenstein encontra o Lobisomem”, onde os dois monstros homônimos se digladiam no primeiro crossover do gênero, acabou resultando em uma nova fórmula a ser explorada pela Universal. O negócio agora era juntar dois ou mais monstros clássicos do estúdio em um mesmo filme, com a finalidade de apresentar algo inovador a um filão que já começa a dar sinais de desgaste, além, claro, de atrair aos cinemas de uma só vez os fãs de todos os personagens envolvidos na produção. Assim, em 1944 é lançado "House of Frankenstein" (A Casa de Frankenstein), seqüência direta de “Frankenstein Meet the Wolfman (Frankenstein encontra o Lobisomem), produzido no ano anterior.
 
Desta vez, além do Monstro de Frankenstein (a partir de agora interpretado pelo gigantesco Glenn Strange) e do Lobisomem (novamente a cargo de Lon Chaney Jr), temos ainda a presença do Conde Drácula (pela primeira vez interpretado pelo cultuado John Carradine), um corcunda psicopata (J. Carrol Naish) e um cientista maluco, nos melhores moldes do Dr Frankenstein (papel do eterno ícone do cinema de horror Boris Karloff).
 
Além do elenco de astros, a Universal novamente teve o esmero de reunir um time de profissionais renomados para trabalhar por detrás das câmeras. Para a direção foi chamado Erle C. Kenton, que havia dirigido “O Fantasma de Frankenstein”. O roteiro ficou a cargo de Edwart T. Lowe Jr, que adaptou a história originalmente criada pelo grande Curt Siodmak, autor dos roteiros de “O Lobisomem” e “Frankenstein encontra o Lobisomem”. Finalmente, para dar conta da maquiagem e caracterização dos monstros, foi montada uma equipe inteira de maquiadores, mas sempre sob o comando do inesquecível mago Jack Pierce.
 
Certamente, a idéia de misturar tantos personagens caricatos em uma mesma história pode levantar suspeitas em um primeiro momento, e gerar a desconfiança de que o resultado seria um filme forçado e demasiadamente inverossímil, mesmo para o fantástico universo ficcional criado para dar vida aos monstros daquele período. Porém, o que acontece é exatamente o oposto. O roteiro do filme é coeso e consistente, conseguindo com surpreendente coerência retomar a trajetória dos personagens abordados no filme anterior de forma convincente, e ainda introduz uma série de novos personagens com igual eficiência.
 
A história inicia no interior de um escuro e sinistro presídio de aparência medieval, onde se encontra preso o maquiavélico Dr Niemann (Karloff) e o corcunda psicopata Daniel (Naish). Durante uma noite de tempestade, o cientista explica para o corcunda alguns aspectos teóricos das suas experiências sobre transplantes de cérebros, e argumenta que se ele possuísse os manuscritos do falecido Dr Frankenstein, de quem muito tinha ouvido falar, poderia realizar toda sorte de transplantes jamais cogitados pela medicina convencional. O corcunda se surpreende, e pergunta ao Dr Niemann se ele poderia lhe dar um corpo normal caso estivesse de posse das informações que precisava, e fica muito empolgado ao ouvir uma resposta afirmativa. Nesse momento, a violência da tempestade se intensifica enormemente, fazendo com que uma parte do presídio desmorone, permitindo assim a fuga dos dois prisioneiros através dos subterrâneos.
 
Mais tarde, o cientista e o corcunda encontram uma grande carroça atolada na estrada, sem que seus ocupantes conseguissem retomar a viagem. Os dois ajudam a desatolar o veículo, e assim conseguem uma carona para se abrigarem da noite chuvosa. O dono da carroça é o Professor Lampini (George Zucco), que possui uma câmara de horrores e viaja por toda a Europa apresentado suas bizarras atrações em shows itinerantes. Seu maior orgulho é um caixão, que segundo ele abriga o verdadeiro esqueleto do Conde Drácula, encontrado no alto das montanhas da Transilvânia. O esqueleto traz uma estaca de madeira transpassada em seu tórax, e de acordo com a lenda, se for removida pode trazer o vampiro de volta à vida.
 
Por sua vez, o Dr Niemann mente que ele e o corcunda eram simples viajantes que haviam sido feitos reféns por assaltantes da montanha durante longos meses. O cientista também pergunta se Lampini está se dirigindo para a região da Vasaria, e ao ouvir uma resposta negativa, ordena que o corcunda o mate, bem como os seus demais assistentes. Então ficamos sabendo que o Dr Niemann havia sido preso por fazer experiências utilizando cadáveres roubados, e que agora pretendia se vingar dos responsáveis pela sua prisão, além de que também almejava encontrar os famosos manuscritos do Dr Frankenstein para poder dar continuidade aos seus macabros experimentos. Para isso, ele assumiria a identidade do Professor Lampini e o corcunda Daniel seria seu assistente.
 
Com esse disfarce, a dupla chega ao vilarejo onde vive o burgomestre Hussman (Sig Ruman), um dos antigos inimigos do Dr Niemann. À noite, durante uma exibição da câmara dos horrores, o cientista identifica o burgomestre na platéia e fica enfurecido. Nos bastidores, o Dr Niemann retira a estaca do esqueleto do Conde Drácula e acaba ressuscitando o vampiro. Ardiloso, o cientista pede para que o renascido Drácula (Carradine) lhe ajude a matar seus inimigos, e em troca lhe oferece fidelidade e proteção durante o dia. O vampiro aceita o acordo e parte ao encalço do burgomestre Hussman. Aqui acho importante não entrar em detalhes sobre a empreitada do vampiro, pois seria impossível relatar algo sem soltar spoilers, o que certamente atrapalharia a diversão de quem vai assistir ao filme pela primeira vez. Mas posso assegurar que o período em que Drácula fica em cena, embora seja curto, é um dos pontos altos do filme.
 
E por falar no vampiro, aqui cabe mencionar que muita gente desaprovou a escolha de Carradine no papel de Drácula. Embora seja um excelente ator, parece que realmente seu perfil físico, magro e baixo, não combinou com a onipotência sempre relacionada ao Rei dos Vampiros. Além disso, a caracterização destinada ao personagem, de bigode e cartola, destoa enormemente do visual aristocrático e sombrio imortalizado por atores como Bela Lugosi e Cristopher Lee. Tanto isso é verdade, que Carradine interpretou Drácula em apenas mais um filme depois desse, que foi exatamente a sua seqüência “A Casa de Drácula”. Para “Abbott e Costello encontram Frankenstein” foi chamado novamente Bela Lugosi para assumir o papel do vampiro. Mas de qualquer forma, para os fãs de David Carradine, ele assegurou o seu lugar de destaque nas produções da Universal, sendo lembrado por muitos como o eterno “Drácula do Bigodinho”.
 
Mas voltando à história, depois de uma série de incidentes, o Dr Niemann e o corcunda seguem viajem deixando Drácula para trás. Já na região da Vasaria, eles chegam ao povoado onde há muitos anos atrás houve o famoso confronto entre o Monstro de Frankenstein e o Lobisomem, eventos vistos no filme anterior. Nas cercanias, encontram um acampamento cigano, e depois de ver uma bela dançarina ser espancada por um homem inescrupuloso, o corcunda Daniel aplica uma lição ao agressor e leva a moça consigo. A jovem cigana se chama Ilonka (Elena Verdugo) e logo desperta a paixão do corcunda.
 
Naquela mesma noite, o Dr Niemann localiza uma trilha que leva às ruínas do antigo castelo do Dr Frankenstein e parte para lá com seu assistente na expectativa de encontrar o tão almejado livro de anotações do falecido cientista. Acidentalmente, a dupla descobre nos subterrâneos do castelo uma passagem que leva a uma gruta glacial, onde os corpos do Monstro de Frankenstein e do Lobisomem permaneceram congelados após a inundação vista no filme anterior. Na esperança de que os monstros pudessem lhes dizer onde estavam guardadas as anotações do Dr Frankenstein, Niemann e o corcunda decidem descongelá-los.
 
Ao retornar à sua forma humana depois de descongelado, Larry Talbot entrega o almejado livro ao Dr Niemann e, acreditando na promessa do cientista, que diz poder curá-lo de sua maldição através de uma cirurgia, aceita partir com o grupo em direção ao seu antigo laboratório, nos pântanos da Vasaria. A partir de então, as coisas saem do controle e geram uma situação caótica: A cigana Ilonka se apaixona pelo melancólico Talbot, o que desperta a inveja e o ódio do corcunda. O Dr Niemann não cumpre o prometido e se dedica às suas experiências com o intuito de se vingar de seus inimigos e culmina por ressuscitar o violento Monstro de Frankenstein. Para completar, Talbot se transforma no Lobisomem, fazendo vítimas na aldeia vizinha e atraindo a atenção dos furiosos habitantes locais. Essa sucessão de acontecimentos gera uma bizarra reação em cadeia, cujo desfecho será extremamente trágico e de onde poucos sairão com vida.
 
Com esse enredo instigante e com a equipe de astros envolvida, o resultado dessa produção não poderia ser outro além de um passa-tempo extremamente cativante e divertido. Em relação aos filmes anteriores, percebe-se aqui a contínua evolução dos efeitos especiais e de maquiagem, que se por um lado parecem muito precários e rudimentares quando comparados aos atuais, na época foram responsáveis por apresentar um Lobisomem mais “realista”, além da transformação do Drácula em morcego mostrada on-screen, coisa que até então era costumeiramente feita em off. Os trabalhos de cenografia, que sempre foram um dos pontos altos das produções da Universal desse período, aqui parecem atingir seu ápice, apresentando imagens belíssimas. A cena em que Drácula parte ao encalço de seu caixão com o sol nascente surgindo no horizonte, é algo simplesmente fantástico.
 
De pesaroso, podemos citar a participação do Monstro de Frankenstein, que a exemplo do filme anterior teve sua importância reduzida a de mero coadjuvante, só ganhando oportunidade de entrar em ação no final, o que viria a se repetir também nos dois filmes seguintes. Também é de se lamentar o fato de que “A Casa de Frankenstein” foi o último grande filme abordando os monstros clássicos da Universal, e em especial o personagem do Lobisomem. “A Casa de Drácula” e “Abbott e Costello encontram Frankenstein” embora tenham seus bons momentos, são filmes inferiores e que não proporcionam o mesmo nível de diversão que a série vinha mantendo até aqui.
 
Acredito que poucas coisas possam geram um sentimento de frustração tão grande quanto à experiência de ver algo começar de forma promissora, revolucionária até, e terminar de maneira medíocre e decepcionante. Infelizmente, é essa a sensação que fica após assistirmos “Abbott and Costello Meet Frankenstein” (Abbott e Costello Encontram Frankenstein - 1948), último filme da Universal a apresentar os seus monstros sagrados: Drácula, Larry Talbot, o Lobisomem, e o Monstro de Frankenstein. Sim, depois de explorar a exaustão a imagem dessas criaturas ao longo de praticamente duas décadas, conseguindo assim fugir da falência que vitimou boa parte dos estúdios cinematográficos americanos durante a Grande Depressão, a Universal lhes destinou um final inglório, envolvendo-os em uma comédia ultrajante, mas infelizmente nada engraçada.
 
Bud Abbott e Lou Costello eram uma dupla de conceituados comediantes que se apresentava em teatros pelos quatro cantos dos EUA, inclusive na Brodway. Um programa de rádio apresentado por eles no início da década de 1940 fez tanto sucesso que motivou a Universal a apostar na dupla como sucessores de “O Gordo e o Magro”, levando-os para protagonizar suas trapalhadas no cinema. Os dois ainda ganharam uma série de TV chamada “Abbott e Costello Show”, que chegou a ser exibida no Brasil durante a década de 1970. Nesse meio tempo, ao longo de mais de 20 anos de carreira, a dupla protagonizou dezenas de longas-metragens, interpretando os mais diversos personagens e vivendo as mais variadas aventuras. Um desses filmes foi justamente “Abbott e Costello encontram Frankenstein”, lançado em 1948, e considerado pelos fãs dos comediantes como sendo uma das obras mais divertidas protagonizadas pelos inseparáveis amigos.
 
Devo confessar que nunca assisti a outro filme de Abbott e Costello além desse, mas se de fato, este aqui for um dos mais divertidos, então não pretendo assistir mais nenhum. Talvez eu esteja sendo um pouco exagerado, por não ser fã de comédias, ou talvez esteja sendo demasiadamente rabugento por estar contrariado com o tratamento destinado aos monstros nesse filme, mas a verdade é que não dei sequer uma risada ao longo dos 80 minutos de sua duração. Acredito que na longínqua década de 1940 as piadas e as gags de Abbott e Costello até pudessem ser engraçadas, mas vistas hoje em dia fazem com que as tiradas da turma do “Chaves” pareçam algo do tipo genial. E o pior é que se o filme tivesse sido desenvolvido com uma abordagem séria, poderia ter tido ótimos resultados, uma vez que o elenco possuía além de Lon Chaney Jr e Glenn Strange também o astro Bela Lugosi repetindo seu inesquecível papel de Conde Drácula, a cenografia voltou a receber maiores cuidados e com isso novamente podemos vislumbrar belíssimas imagens ao longo do filme, e mesmo os efeitos especiais mostram sensível avanço em relação aos filmes anteriores. Até mesmo a história abordada tinha potencial para render um roteiro que, com alguns ajustes, poderia se tornar envolvente e interessante. Confira:
 
Chick (Abbott) e Wilbur (Costello) são dois atrapalhados funcionários do serviço postal norte-americano. Certo dia, atendem uma ligação de Londres, dizendo que, se recebessem algumas caixas endereçadas a um tal de Senhor McDougal (Frank Ferguson), não deveriam entregar sob hipótese alguma. O sujeito do outro lado da linha é Larry Talbot (Lon Chaney Jr) e diz que chegaria aos EUA em poucos dias e então explicaria tudo.
 
Tão logo Wilbur desliga o telefone, o Senhor McDougal chega e exige a liberação de suas encomendas, dizendo que é dono de um Show de Horrores e que acaba de comprar diretamente da Europa os cadáveres do Monstro de Frankenstein e do Conde Drácula. Sem alternativas, Chick e Wilbur liberam as caixas, e ainda se comprometem em entregá-las no prédio que hospeda o tal Show de Horrores. Nesse meio tempo, conhecemos Sandra (Lénore Aubert), a linda namorada do feioso Wilbur, e assim como os demais personagens, não entendemos como ela pode se interessar por um cara tão chato e maluco.
 
Durante a noite, quando os dois amigos vão entregar as caixas no Show de Horrores do Sr McDougal, ocorrem uma série de trapalhadas e confusões e o Conde Drácula (Lugosi) e o Monstro de Frankenstein (Strange, interpretando pela última vez o personagem), que estavam escondidos nas caixas, acabam fugindo. Wilbur vê tudo, mas logicamente ninguém acredita nele, e juntamente com Chick, acaba preso, acusado de roubar o conteúdo das caixas.
 
No dia seguinte, alguém paga a fiança e libera a dupla de trapalhões, embora nem eles saibam que foi o responsável pela boa ação. Então surge Larry Talbot, recém chegado de Londres, e explica que tudo não passa de um plano de Drácula, que veio para os EUA à procura de um cientista que possa revigorar o já bastante debilitado Monstro de Frankenstein, a fim de torná-lo o escravo perfeito – forte, indestrutível e submisso. Talbot também revela que é um lobisomem, e que vem seguindo Drácula há muito tempo na tentativa de destruí-lo. Wilbur acredita em Talbot, mas Chick pensa que tudo não passa de loucuras e se nega a ajudá-los.
 
Mais tarde, ficamos sabendo que Sandra, namorada de Wilbur, é a cientista que Drácula veio procurar, e que ela só finge estar namorando o abobalhado funcionário do serviço postal porque pretende seqüestrá-lo e retirar seu cérebro de idiota para transplantar no Monstro de Frankenstein. Depois de mais algumas confusões e piadas sem lá muita graça, todos acabam se encontrando em uma festa à fantasia, onde ocorrem brigas e quebra-quebra, e no final das contas Wilbur acaba sendo seqüestrado e levado para a ilha de Drácula, onde a Dr Sandra pretende realizar o sinistro transplante cerebral. Caberá então a Talbot e Chick partir para lá na tentativa de salvar o amigo.
 
Quem assistiu aos filmes anteriores envolvendo os monstros clássicos, logo perceberá que essa história nada tem a ver com as outras obras, pois desconsidera completamente o passado dos personagens, sua mitologia e sua cronologia, sendo uma espécie de aventura avulsa, onde os monstros são mero pretexto para atrair a atenção dos fãs. Mas esse não seria um problema assim tão grave, já que o filme anterior, “A Casa de Drácula”, também desconsiderava certos elementos da trajetória dos personagens. O ponto crítico do filme é o fato de ele ser assumidamente uma comédia, destinada aos fãs de Abbott e Costello, e não aos fãs dos monstros e de filmes de terror. Tanto que o diretor Charles Barton e os roteiristas Robert Lees, Frederic Rinaldo e John Grant (sim, três roteiristas!) eram especialistas em filmes de humor e aventura, sem nenhuma experiência no gênero horror. Por isso é que fica tão difícil de gostar dessa obra, pois é deprimente ver o grande Drácula de Lugosi brincando de esconde-esconde com Wilbur, ou o sempre voraz Lobisomem sendo feito de bobo e trancafiado num simples quarto de hotel.
 
O filme só não é uma decepção total porque nos 20 minutos finais, quando Talbot e Chick invadem o castelo na ilha do Drácula, aí a coisa finalmente engrena e temos muito corre-corre e lutas entre os monstros, o que parece deixar claro que se o diretor Charles Barton tivesse investido um pouco mais na ação e menos nas piadinhas bestas, poderíamos ter tido um filme bem mais divertido. Provavelmente a maior virtude do filme é fazer com que o Monstro de Frankenstein tenha bastante tempo e espaço para perpetuar a sua destruição, fazendo até com que nos lembrássemos dos bons tempos de seus filmes solo, uma vez que nos crossovers ele sempre teve papel de coadjuvante, recebendo muito pouco destaque. Larry Talbot também tem papel central na trama, e o lobisomem entra em ação diversas vezes, principalmente no final, onde trava um belo confronto com o Conde Drácula. Na última cena do filme, ainda temos a “participação” de outro grande astro do cinema de horror - Vincent Price - que faz a voz do Homem Invisível.
 
Nos bastidores das gravações desse filme também surgiram várias histórias, que com o passar do tempo acabaram se tornando públicas, a maioria envolvendo o competente, porém sempre polêmico Lon Chaney Jr. Nos extras do DVD nacional do filme “O Lobisomem”, de 1941, existe uma faixa de áudio com comentários do historiador de cinema Tom Weaver, onde ele cita o fato de que Chaney Jr tentou se suicidar logo após as o fim das gravações de “Abbott e Costello encontram Frankenstein”. Algum tempo depois, já recuperado, mencionou que o grande stress e cansaço proporcionados pelas filmagens, principalmente, às longas horas em que era submetido às seções de maquiagem para a caracterização do lobisomem, foram as responsáveis pela sua atitude. Apesar dessa afirmação, sabe-se que o ator era um fanfarrão nato, e que na verdade sua tentativa de suicídio estava relacionada à depressão e aos abusos no consumo de bebidas alcoólicas. Tanto é verdade que Chaney gostava de contar uma lorota, que em certa época ele declarou que na grande maioria das cenas em que o Monstro de Frankenstein aparece, era ele quem o interpretava, já que Glenn Strange haveria quebrado o tornozelo já nos primeiros dias de filmagem. Porém, nem Strange e nem ninguém da Universal jamais confirmou essa informação.
 
Por fim, esse foi realmente o último filme da Universal a contar com Drácula, Larry Talbot e o Monstro de Frankenstein como protagonistas. Algum tempo depois, o estúdio venderia os direitos de imagem desses personagens para a Hammer, e dos anos 1950 ao final da década de 1970, Drácula e o Monstro de Frankenstein dariam as caras muitas vezes em uma grande quantidade de filmes, mas sempre interpretados por outros atores. Apenas Larry Talbot, o atormentado Lobisomem da Universal, nunca mais ressurgiria, mas deixaria um legado de filmes inesquecíveis a serem apreciados pelos fãs, imortalizando Lon Chaney Jr como um ícone definitivo na sombria, mas fascinante história do cinema de horror.

Frankenstein Meets the Wolfman - 1943


 
Em 1943, a popularidade do Monstro de Frankenstein - personagem de maior êxito comercial dos filmes de horror da Universal - parecia estar em baixa. Apesar do redundante sucesso e das grandes bilheterias obtidas por filmes como “Frankenstein” de 1931 e “A Noiva de Frankenstein” de 1935, os dois filmes seguintes, “O Filho de Frankenstein” de 1939 e “O Fantasma de Frankenstein” de 1942 não obtiveram boa resposta, nem por parte do público e nem por parte da crítica, o que levava a crer que a fórmula adotada na saga da infeliz criatura já estava saturada.
 
Porém, se o monstro sozinho já não fazia mais o sucesso de outrora, algum executivo da Universal deve ter imaginado que, acompanhado de outro personagem clássico, talvez a criatura de Frankenstein retomasse os seus melhores índices de popularidade, o que de certa forma acabou se concretizando. Para protagonizar a nova produção ao lado do personagem criado por Mary Shelley, a Universal decidiu apostar no Lobisomem, sua mais recente criação, e cujo filme original, de 1941, havia sido a melhor bilheteria obtida pelo estúdio naquela década que se iniciava.
 
Para elaborar aquele que viria a ser o primeiro crossover dos filmes de horror, a Universal decidiu recrutar boa parte dos profissionais que trabalharam em “O Lobisomem”, deixando o enredo que colocaria lado a lado dois monstros sagrados do horror a cargo do renomado roteirista Curt Siodmak, responsável também pelo inventivo e elogiado roteiro do filme de 1941. Boa parte do elenco de astros que atuou naquele filme foi reunido novamente, com a participação de Maria Ouspenskaya, Patric Knowles, Bela Lugosi, no papel do Monstro de Frankenstein e Lon Chaney Jr como Larry Talbot, o Lobisomem. O experiente George Waggner, que produziu e dirigiu “O Lobisomem” volta na função de produtor, deixando a direção nas mãos do competente Roy William Niell, e a caracterização dos monstros ficou novamente a cargo do genial maquiador Jack Pierce. Com uma equipe de profissionais desse nível, o resultado de “Frankenstein encontra o Lobisomem” não poderia ser outro além do sucesso.
 
Provavelmente em virtude de o roteiro ter sido escrito por Siodmak, responsável pela criação de todo o universo ficcional de “O Lobisomem”, o crossover acaba se concentrando quase que em sua totalidade no personagem de Larry Talbot, relegando ao Monstro de Frankenstein o papel de mero coadjuvante, algo que viria a se repetir também nas produções posteriores.
 
O filme já começa com uma belíssima visão panorâmica de um lúgubre e sinistro cemitério, envolto pelas sombras em um vale desolado de árvores decrépitas, em um esplendido trabalho de cenografia, marca registrada das produções da Universal desse período. Então vemos dois homens se esgueirarem pelo local até invadirem a cripta destinada aos mortos da família Talbot. Logo ficamos sabendo se tratar de uma dupla de ladrões de sepulturas, cujo objetivo é violar o caixão de Larry Talbot (Lon Chaney Jr) para se apossar das jóias e do dinheiro que supostamente haveriam sido sepultadas com ele. Quando o caixão de Talbot é aberto, os dois sujeitos se surpreendem ao ver que o corpo se encontra intacto, apesar de já ter sido sepultado há três anos. Também causa espanto o fato de o cadáver estar coberto por uma grande quantidade de flores de acônito, cujo nome popular é “mata-lobos”, e que de acordo com as lendas européias tem o poder de neutralizar a maldição do lobisomem, da mesma forma que ocorre com o alho em relação à mitologia dos vampiros.
 
Cada vez mais assustados, os ladrões decidem se apossar das jóias de Talbot e sair daquele sinistro local o mais rapidamente possível. Porém, quando a luz da lua cheia ilumina o interior da cripta através de uma pequena janela, o corpo de Talbot revive e agarra o pulso de um dos marginais. Apavorado, seu companheiro foge em disparada enquanto ouve os gritos e urros vindos da cripta à suas costas.
 
A ação corta para algumas horas depois, no vilarejo de Cardiff, onde um policial encontra o corpo de um homem desconhecido desmaiado na rua, com um grande ferimento na cabeça. Um novo corte nos leva ao dia seguinte, onde o Dr Frank Mannering (Patric Knowles) e o Inspetor Owen (Dennis Hoey) interrogam o desconhecido no hospital para onde ele foi levado pelo policial que o encontrou. Bastante confuso e atordoado, o desconhecido diz apenas se chamar Larry Talbot e que é natural do vilarejo de Llanwelly, mas que não se lembra como foi parar até ali e nem de que forma machucou a cabeça. Desconfiado, o Inspetor Owen liga para a Polícia de Llanwelly para obter informações sobre Talbot, sendo então informado de que ele morreu três anos antes. Na mesma noite, Talbot se transforma em lobisomem e ataca um policial na rua.
 
No dia seguinte, o próprio Talbot toma a iniciativa de dizer ao Dr Mannering e ao Inspetor Owen que se transformou em um monstro e cometeu um assassinato. O médico acredita que Talbot é simplesmente um doente mental e ordena que o prendam em uma camisa-de-força. O Inspetor, por sua vez, desconfia que o homem é um impostor, e decide ir até a aldeia de Llanwelly para obter informações sobre a família Talbot.
 
Ao chegar na aldeia vizinha, o Inspetor é informado que Larry Talbot foi morto por seu próprio pai, que pensava estar agredindo um lobo que vinha aterrorizando as redondezas. Ao visitar a cripta da família Talbot, o Inspetor Owen e seus companheiros encontram o cadáver do ladrão de sepulturas, mas percebem que o corpo de Larry Talbot desapareceu de seu caixão. Intrigado, o Dr Mannering, que acompanhava o Inspetor, decide ligar para o hospital onde seu paciente estava preso, e descobre que ele fugira durante a noite, depois de, aparentemente, ter rasgado a camisa-de-força com os dentes.
 
Novamente a ação do filme pula para vários dias depois, onde Larry Talbot acaba encontrando a cigana Maleva (Maria Ouspenskaya) que era mãe de Bela, o lobisomem que o mordeu e lhe transmitiu a maldição no filme anterior. Talbot pede ajuda para a velha, dizendo que se não for possível cura-lo da maldição, que pelo menos ela lhe mostre uma forma de morrer, para que assim ele pudesse ter paz. Comovida, a cigana diz que nada pode fazer pelo pobre infeliz, mas que tem conhecimento da existência de um genial cientista chamado Frankenstein que talvez possa lhe ajudar. Assim, Talbot e Maleva partem para uma longa viagem até a Vasaria, onde esperam encontrar o Dr Frankenstein.
 
Depois de vários dias em uma árdua viagem, a dupla chega ao vilarejo incrustado no alto das montanhas. Porém, para a sua infelicidade, acabam descobrindo que tanto o Dr Frankenstein quanto o seu monstro morreram quando a população local ateou fogo em seu castelo. Para piorar ainda mais as coisas, naquela noite a lua cheia surge e Talbot se transforma em lobisomem, matando uma habitante da aldeia.
 
Revoltados, os moradores partem ao encalço do monstro, perseguindo-o até o alto da colina onde estão as ruínas do castelo do Dr Frankenstein. Na ânsia de fugir, o lobisomem acaba caindo nos porões do antigo castelo, e dali vai parar nas catacumbas existentes nos seus subterrâneos. Ao acordar no dia seguinte, novamente em sua forma humana, Talbot acaba encontrando o Monstro de Frankenstein congelado no interior das catacumbas, e decide libertá-lo. A sua intenção era fazer com que a criatura lhe mostrasse onde o Dr Frankenstein guardava seus livros e suas anotações, na esperança de que em meio ao material do cientista pudesse haver algo que o ajudasse a se livrar de seu tormento. Infelizmente, as coisas mais uma vez não ocorrem como Talbot queria, e agora ele precisa procurar outra alternativa para tentar solucionar o problema que tanto o aflige, ao mesmo tempo em que precisará também encarar o Dr Mannering, que estava seguindo-o desde Cardiff. Como se não bastasse, o Monstro de Frankenstein invade a aldeia em uma noite de festa, espalhando o pânico entre a população e levando os moradores a se reunir na tentativa de destruir a perigosa criatura. Em meio a esse contexto, as situações se desenrolam de tal forma que um confronto mortal entre o Lobisomem e o Monstro de Frankenstein se tornará assustadoramente inevitável.
 
Com esse enredo simples, mas ao mesmo tempo bem consistente e com uma intrincada gama de ricos personagens, “Frankenstein encontra o Lobisomem” se constitui em um dos melhores filmes do período, e certamente é o exemplar que melhor desenvolve o personagem do Lobisomem/Talbot, sendo, ao meu ver, até superior ao filme original, cujo roteiro se preocupou bastante em montar uma mitologia e um universo ficcional para o personagem e acabou apresentando pouca ação ou momentos mais densos. Felizmente, isso é corrigido nesta seqüência, onde podemos ver o Lobisomem em plena atividade. Além disso, os efeitos especiais evoluíram bastante em relação ao filme original, apresentando transformações melhor elaboradas e um visual do Lobisomem mais animalesco, e de certa forma mais convincente. A maquiagem de Bela Lugosi como o Monstro de Frankenstein ficou igualmente impressionante e até mesmo assustadora, embora não supere a medonha e inesquecível caracterização imortalizada por Boris Karloff.
 
Outro ponto positivo do filme é a atuação de Chaney Jr, que agora parece mais à vontade no papel que lhe conferiu o estrelato, atuando de forma mais espontânea, o que confere mais dramaticidade e credibilidade ao seu personagem. Maria Ouspenskaya também é um show à parte interpretando a cigana Maleva. A impressão que temos é que realmente poderíamos encontrá-la em um acampamento cigano à beira de uma rodovia qualquer, lendo a mão de viajantes ou vendendo artesanatos. Quanto a atuação de Lugosi, não há muito que comentar, uma vez que o seu personagem além de caricato aparece pouco em cena, mas nos momentos que o faz não deixa de causar o devido impacto.
 
Além do início, no cemitério, que impressiona pelo macabro trabalho cenográfico e pela envolvente aura de mistério, o filme ainda trás ótimas cenas, como no momento em que o Lobisomem está sendo perseguido através das montanhas pelos aldeões, o confronto final entre os monstros nas ruínas do castelo do Dr Frankenstein e o momento em que Larry Talbot se transforma em Lobisomem no hospital. Essa transformação, em especial, chega a ser mencionada por Rick Baker no documentário “Monster by Moonlight” como um dos mais marcantes trabalhos de efeitos especiais daquele período.
 
Mas além da ação e do suspense, o filme ainda trás bem dosadas cenas de humor negro, que apesar de discretas, servem para dar um contraponto cômico a certas passagens da história, como os ríspidos diálogos entre o Prefeito de Vasaria e o enxerido taberneiro local, a parte em que um cantor folclórico passa a perturbar Talbot com suas musiquinhas irritantes, e principalmente o momento em que o Monstro de Frankenstein passa a arremessar barris sobre os habitantes de Vasaria depois de invadir (e destruir) a festa que estes promoviam.
 
Em razão de todos esses aspectos, “Frankenstein encontra o Lobisomem” é um filme indispensável para os apreciadores do inesquecível ciclo de filmes de horror em preto-e-branco da Universal, pois se constitui em um dos mais belos trabalhos elaborados pelo estúdio naquele período. Da mesma forma, é simplesmente obrigatório para todo fã de filmes de lobisomem que queira conhecer um pouco mais sobre a fascinante trajetória do maior ícone licantropo de todos os tempos.

The Howling - 1981


Peça para todos os fãs de filmes de lobisomem que encontrar para que elaborem uma lista com os melhores filmes do gênero, e eu seria capaz de apostar que em todas aparecerão três nomes, muito provavelmente nas primeiras posições: “Um Lobisomem Americano em Londres” (1981) de John Landis, “A Hora do Lobisomem” (1985) de Daniel Attias (cuja exibição na TV se deu sob o título de “Bala de Prata”, tradução literal do título original) e “Grito de Horror” (1981) de Joe Dante. Certamente, tal lembrança é mais do que justificável, uma vez que estes filmes formam a “trinca de clássicos” que representa o que de melhor foi produzido dentro do ciclo de filmes de lobisomem da década de 1980. Além disso, todos foram exibidos e reprisados exaustivamente pelo canal de televisão SBT entre o final da década de 1980 e início da de 1990, fazendo com que ficassem bem vivas as lembranças desses filmes na memória de toda uma geração, como representantes de um período em que passavam filmes de terror na TV aberta quase que diariamente. Uma saudosa época que se foi e não volta mais.

De qualquer forma, enquanto “Um Lobisomem Americano em Londres” marcou época com o brilhantismo de seus efeitos especiais e a empolgante mistura de terror e humor negro e “A Hora do Lobisomem” se destacou pelo envolvente suspense do enredo elaborado pelo ídolo Stephen King, “Grito de Horror” também traz consigo uma série de méritos, entre eles, o fato de ter sido o primeiro exemplar deste ciclo oitentista de filmes tratando das criaturas licantrópicas, e a inovadora abordagem conferida aos lobisomens, que, por um lado, expunham horrenda selvageria e brutalidade, e por outro, emanavam mistério e uma considerável dose de sensualidade.

O roteiro de “Grito de Horror”, escrito por John Sayles (“Piranha”, “Alligator – O Jacaré Gigante”) e Terence Winkless, consiste em uma adaptação do livro “The Howling”, de Gary Brandner, e começa mostrando uma intrincada operação conjunta entre uma emissora de televisão e a Polícia, no intuito de dar cobertura a uma famosa jornalista chamada Karen White (Dee Wallace Stone) que irá se encontrar com um misterioso serial-killer que se identifica apenas como Eddie (Robert Picardo) e que tem espalhado o pânico pela cidade esquartejando suas vitimas nas noites de lua cheia. O encontro acontece em um sex shop de um bairro barra-pesada, mais especificamente dentro de uma cabine de projeção de filmes pornô. Lá, o maníaco se revela literalmente fascinado pela jornalista, dizendo que ela é “uma mulher especial”, e que por isso merece ver “algo” que ele tem para lhe mostrar. Então Karen vê algo horrendo acontecer em meio à escuridão da cabine, mas antes que ocorra algo ainda pior, uma dupla de policiais invade o local e mata o maníaco a tiros.

Depois dessa macabra experiência, Karen fica muito traumatizada, e passa a sofrer com pesadelos e lapsos de memória que a impedem de trabalhar e põe até mesmo sua vida conjugal em uma situação delicada. Desesperada, decide acatar o aconselhamento do Dr George Waggner (Patrick Macnee), um psiquiatra que presta consultoria para a emissora em que trabalha, e parte com o marido Bill (Christopher Stone, que foi marido de Dee na vida real) para uma espécie de clinica terapêutica conhecida como “A Colônia”, localizada em uma afastada área florestal, onde se submeterá ao acompanhamento psiquiátrico do próprio Dr Waggner, proprietário da clínica.

Paralelamente, Chris (Dennis Dugan) e Terry (Belinda Balaski), um casal de reportes colegas de Karen, desenvolvem uma ampla investigação sobre a trajetória do serial-killer Eddie, e a medida em que fazem surpreendentes e assustadoras descobertas, começam a desconfiar que ele fosse algo mais do que um simples psicopata. Tais desconfianças ficam ainda maiores quando o corpo de Eddie simplesmente desaparece do necrotério onde se encontrava.

Nesse meio tempo, Karen e Bill são recebidos pelos freqüentadores da Colônia e não tardam a perceber que são pessoas tão simpáticas quanto bizarras. As coisas começam a piorar quando Bill é atacado por um estranho animal enquanto andava pelo bosque à noite, ao mesmo tempo em que passa a ser freqüentemente assediado por Marsha (Elisabeth Brooks), uma mulher misteriosa e sedutora, apontada pelos outros freqüentadores como ninfomaníaca. Por sua vez, Karen passa a ficar amedrontada com os perturbadores uivos que ouve vindo da mata durante a noite, à medida que passa a estranhar cada vez mais o comportamento das pessoas que a cercam, inclusive o do próprio marido, que agora parece um tanto mudado. E falar mais sobre o roteiro seria estragar as surpresas que a trama reserva para quem for assistir ao filme pela primeira vez.

O que se pode dizer com convicção é que “Grito de Horror” é um filme ousado e inovador, principalmente quando levado em consideração o ano em que foi produzido. Ousado porque não hesita em enfocar um dos pontos-chave da trama em uma inusitada e controversa cena de sexo. Também chama a atenção ao mostrar, de forma um tanto quanto crua, personagens desprezíveis, movidos apenas por sadismo e crueldade. Dentro desse contexto, também merece destaque o final, extremamente irônico, amargo e pessimista, que fecha perfeitamente com a proposta do filme.

Em termos de inovações, destaca-se o fato de mostrar os lobisomens com pleno controle sobre o seu poder de metamorfose, podendo se transformar em monstro ou retroceder à forma humana no momento em que bem entendessem. Além disso, o visual adotado para as criaturas nesse filme também foi uma novidade, pois até o final da década de 1970 os lobisomens costumavam ser caracterizados ao estilo clássico imortalizado pela interpretação de Lon Chaney Jr, onde os monstros eram basicamente seres humanos, de roupa e tudo, apenas mais peludos e com presas e garras afiadas. Em “Grito de Horror” os lobisomens possuem uma anatomia bem mais animalesca, fazendo com que sua hibridização se assemelhasse muito mais ao lobo, embora de proporções monstruosas, do que ao homem. Essa tendência passaria a ser seguida na quase totalidade dos filmes de lobisomem produzidos a partir de então.

E por falar no visual dos lobisomens, impossível não mencionar o surpreendente trabalho de maquiagem e efeitos especiais, tanto dos monstros em si como das cenas de transformações, que ainda nos dias atuais demonstram qualidade e esmero poucas vezes superadas, mesmo passados tantos anos de sua produção. Em relação a isso, existe uma história de bastidores muito comentada, sobre o fato de que o grande maquiador Rick Backer foi contratado para desenvolver os efeitos especiais do filme, mas após poucos meses de trabalho teve que abandonar a produção, pois recebera de John Landis a notícia de que o Estúdio Universal autorizara o desenvolvimento de “Um Lobisomem Americano em Londres”, e Backer já havia empenhado sua palavra com Landis, dizendo que se o projeto fosse autorizado ele estaria dentro. Então, Backer recebeu os créditos apenas pela função de “Consultor de Efeitos Especiais de Maquiagem”, enquanto o encarregado de por a mão na massa ficou sendo Rob Bottin, que a partir de então se consagrou como um dos profissionais mais requisitados da área, tendo posteriormente trabalhado em filmes clássicos e de grande sucesso como “Enigma do Outro Mundo” de John Carpenter, “A Lenda”, “Robocop”, “O Vingador do Futuro”, “Missão: Impossível”, “Clube da Luta”, entre outros.

Também merece destaque o trabalho de direção, a cargo do cultuado Joe Dante (“Piranha”, “Gremlins”, ‘Gremlins 2”) que fez com que o filme mantivesse um ritmo bastante dinâmico, e arquitetou cenas memoráveis como a monstruosa transa ao redor da fogueira, o confronto no consultório da clínica, o incêndio no celeiro repleto de lobisomens e a cena final, no estúdio de TV, que na minha humilde opinião é antológica em se tratando de filmes de horror da década de 1980.

Em relação ao elenco, além de Dee Wallace Stone, que participou de diversos filmes de horror e suspense, entre eles “Quadrilha de Sádicos” de Wes Craven, “Cujo”, “Criaturas”, “Alligator 2 – A Mutação”, “Popcorn” e o clássico infanto-juvenil “E.T. O Extraterrestre” de Steven Spielberg, é válido citar também a participação do saudoso John Carradine, que atuou em mais de trezentos filmes ao longo de sua carreira, sendo que destes mais da metade foram obras de horror de baixo orçamento produzidos por estúdios como a Universal, onde Carradine se destacou interpretando o Conde Drácula em filmes da década de 1940, como “A Casa de Frankenstein” e “A Casa de Drácula”.

Por fim, também me parece bastante interessante o fato de que em “Grito de Horror” os lobisomens não são vistos como meras máquinas de matar, pois é evidenciado todo um lado metafórico para a relação humanidade/selvageria, enfocando questões como a necessidade de evolução e o controle dos impulsos instintivos. A discussão na reunião no celeiro, próximo ao final do filme, é um bom exemplo dessa abordagem, nos mostrando que os lobisomens, além de despertarem nossos medos e habitarem nossos pesadelos, também podem nos instigar acerca da reflexão sobre a nossa própria existência.